Levantamento com mais de 350 executivos detalha como o uso de IA em empresas avança por setores, aponta diferenças entre brasileiras e multinacionais e expõe lacunas de capacitação e governança
O uso de IA em empresas deixou de ser tema restrito à TI e tornou-se pauta central da estratégia corporativa no Brasil. Um levantamento da EXEC, que ouviu mais de 350 executivos de companhias brasileiras, 56%, e multinacionais, 44%, traça um panorama da maturidade, das aplicações e das barreiras da Inteligência Artificial no ambiente corporativo. Segundo Rodrigo Magalhães, sócio da EXEC, “A Inteligência Artificial já está presente em praticamente todas as conversas estratégicas: seja em reuniões de liderança, projetos de inovação ou até mesmo nos briefings que recebemos para preencher posições de alta gestão. É um tema que deixou de ser periférico para se tornar central na agenda dos executivos”.
Os resultados indicam que as empresas brasileiras têm priorizado a IA como alavanca de eficiência operacional, com foco em produtividade e redução de custos, enquanto as multinacionais tendem a tratar a tecnologia como ativo estratégico de longo prazo, com ênfase em inovação e governança. Nas palavras de Magalhães, “Enquanto o Brasil enxerga a IA como ferramenta de ganho imediato, as multinacionais tratam o tema como ativo estratégico de longo prazo”.
Maturidade setorial e prioridades: eficiência nas brasileiras, inovação nas multinacionais
No recorte por setores, o estudo mostra que o uso de IA em empresas segue trajetórias distintas. No universo de tecnologia e varejo, 30% dos executivos usam a IA para incrementar a inovação e obter ganhos de produtividade em processos. Em mineração, 30% deles buscam a otimização de processos com a ferramenta. Em energia e agro, 20% utilizam a IA para reduzir custos. O recorte financeiro revela que 55% dos bancos apresentam uso pontual de IA em processos e atendimento ao cliente, ainda sem integrar a tecnologia à estratégia central. Já 50% das companhias de tecnologia e educação incorporam a IA como parte de seus planos de inovação, em novos modelos de negócio e no desenvolvimento de competências.
Para consolidar a IA no núcleo do negócio, governança e segurança aparecem como bases incontornáveis. Como avalia Magalhães, “Elas estão aprendendo a integrar essa ferramenta de forma segura, estratégica e com governança, construindo aos poucos os mecanismos necessários para capturar seu potencial sem expor riscos à competitividade ou à reputação organizacional. Para que a IA seja integrada às decisões centrais de negócio, é preciso avançar em pilares como governança de dados, proteção de informações sensíveis, ética no uso e mitigação de riscos”. Em outras palavras, a governança de dados e a proteção de informações sensíveis são peças-chave para elevar a maturidade no uso de IA.
Alta liderança acelera a adoção, mas o mindset digital ainda é determinante
O levantamento aponta que o uso de IA em empresas já permeia a alta liderança. Os cargos de Diretoria representam 30,6% do uso de IA, CEOs respondem por 25%, Diretores de Operações por 25% e CFOs por 19,4%. Em termos de familiaridade com o tema, 45% dos executivos disseram ter um nível intermediário de uso no dia a dia. Para Magalhães, o diferencial competitivo vai além da ferramenta: “Mais do que dominar ferramentas específicas, o que realmente diferencia um líder hoje é possuir um mindset digital: a capacidade de entender o que está disponível no mercado de tecnologia – seja IA ou não – conectar essas possibilidades aos desafios da organização e traduzir isso em resultados concretos. Essa visão é o que sustenta a tomada de decisão estratégica e a inovação contínua.”
Segundo ele, “Isso reforça que o domínio técnico não é o foco principal. O que importa é a capacidade de pensar estrategicamente, fazer as perguntas certas e liderar a transformação digital com responsabilidade e visão de negócio”. Nesse contexto, programas de desenvolvimento de liderança, capacitações e mentorias ganham relevância para consolidar a estratégia de IA e criar competências digitais sustentáveis em conselhos e diretorias.
Aprendizado acelerado, educação formal atrás e governança para escalar
O estudo da EXEC revela ainda um gap educacional no uso de IA em empresas, já que a educação formal não acompanha a velocidade da transformação digital. Para se atualizarem, 28% dos executivos consultam artigos especializados, 30% trocam conhecimento com colegas e amigos do mercado e apenas 15% consideram que cursos acadêmicos oferecem formação adequada em IA. Na prática, a atualização acontece de forma colaborativa, descentralizada e orientada a casos reais. Como resume Magalhães, “Os executivos buscam entender, testar e aplicar soluções diretamente nos seus negócios, aprendendo a partir de casos reais e do intercâmbio entre pares”. Ele reforça que “A IA, por ser um tema em constante evolução, demanda justamente esse tipo de aprendizado contínuo e fluido, menos acadêmico e mais conectado à realidade corporativa”.
Para ganhar tração, a recomendação é construir ambientes controlados de experimentação, com critérios claros de segurança, ética e propósito. Nas palavras do executivo, “Essa é a nova fronteira da liderança digital: não apenas adotar tecnologias, mas orientar o uso delas com discernimento”. Ele alerta ainda que “A cautela não pode se transformar em imobilismo. As empresas precisam fomentar ambientes controlados de experimentação — como hubs de inovação, laboratórios internos e MVPs — com critérios claros de segurança, ética e propósito, acelerando a curva de aprendizado sem abrir mão da governança”.
No balanço geral, o uso de IA em empresas avança em frentes complementares, combina ganhos imediatos de eficiência com a construção de capabilidades de longo prazo, fortalece governança e amplia a inovação. O próximo passo é integrar essas iniciativas à estratégia central, medindo impacto em produtividade, receita e experiência do cliente, acelerando a maturidade sem abrir mão de segurança e ética.