Levantamento indica que o risco regulatório é o maior desafio para blockchain, tokenização e ativos digitais no Brasil, com 90% das companhias preocupadas, cibersegurança e fraudes seguem no radar
O avanço de blockchain, tokenização e ativos digitais no Brasil esbarra em um obstáculo central, o risco regulatório. De acordo com a pesquisa Criptoeconomia no Brasil 2025, realizada por ABcripto e PwC Brasil, 90% das empresas veem a incerteza normativa como o principal entrave para a expansão de projetos, o que afeta diretamente a confiança e a capacidade de escalar soluções.
O estudo indica que a ausência de regras consolidadas, diretrizes operacionais padronizadas e, principalmente, de segurança jurídica segue como ponto crítico. Em um mercado que já domina conceitos e tecnologias, a falta de clareza regulatória prolonga prazos, encarece iniciativas e limita iniciativas de maior porte, especialmente aquelas que dependem de integração com instituições financeiras, infraestrutura de mercado e ambientes corporativos complexos.
Além do risco regulatório, o setor ainda convive com um conjunto de desafios estruturais que pressionam a adoção. A pesquisa destaca preocupações com cibersegurança e fraudes, bem como lacunas de maturidade prática, escassez de profissionais qualificados e dificuldades para integrar soluções com sistemas legados. Mesmo assim, o ritmo de inovação segue acelerado, sustentado pelo interesse de empresas em capturar ganhos de eficiência, liquidez e automação.
Clareza regulatória e segurança jurídica são o elo que falta para escalar
Segundo a ABcripto, o mercado brasileiro já atingiu um novo patamar técnico. Para Fabio Moraes, Diretor de Educação e Pesquisa da entidade, a agenda de crescimento depende de estabilidade normativa que dê previsibilidade a investimentos e operações. Como sintetiza o executivo, “O mercado amadureceu em capacidade técnica e já domina blockchain, tokenização e ativos digitais. O que falta agora é segurança jurídica e padrões claros para que os projetos ganhem escala e se tornem confiáveis para grandes operações”, afirma.
Na mesma direção, a percepção das empresas é que regras claras reduzem o risco regulatório, trazem simetria de informações, definem responsabilidades e permitem que iniciativas de tokenização avancem de pilotos a ambientes produtivos. A padronização operacional, a transparência em requisitos de compliance e a definição de salvaguardas para a custódia e liquidação de ativos digitais são vistos como pré-condições para a confiança do ecossistema.
Cibersegurança, fraudes e baixa maturidade prática ainda pressionam operações
O levantamento também detalha os pontos de maior estresse na adoção. Cibersegurança aparece como preocupação para 48% das empresas, enquanto fraudes são citadas por 45%. A baixa maturidade prática das tecnologias, que impacta a implementação de ponta a ponta, é mencionada por 50% das organizações. A escassez de profissionais especializados atinge 47%, e as dificuldades de integração com sistemas legados são apontadas por 40%.
Para a PwC Brasil, a proteção deve acompanhar o ritmo de adoção. A sócia Ana Gonçalves reforça a necessidade de fortalecer controles, governança e resposta a incidentes, destacando que “a proteção contra fraudes, golpes e ataques cibernéticos precisa evoluir na mesma velocidade que a adoção tecnológica”. Nesse cenário, frameworks de risco, testes de resiliência e alinhamento entre áreas de negócios, tecnologia e jurídico tornam-se essenciais para diminuir a exposição a vulnerabilidades.
Tokenização acelera, e empresas planejam mais investimentos em infraestrutura digital
Mesmo diante do risco regulatório, a percepção de valor permanece alta, especialmente na tokenização. O estudo aponta que 60% das empresas acreditam que a tecnologia se consolidará entre dois e cinco anos, impulsionada por ganhos de eficiência, aumento de liquidez, automação de processos e novos modelos de captação de recursos. A visão é de que a tokenização deve integrar cadeias de valor, desde financiamento e crédito até gestão de ativos e supply chain.
Em paralelo, as organizações planejam intensificar aportes em infraestrutura digital nos próximos cinco anos, com foco em blockchain, inteligência artificial, big data e automação. O objetivo é construir bases tecnológicas robustas que suportem escala, integração e governança de dados, criando condições para que casos de uso avancem de provas de conceito para operações estruturais.
Nesse contexto, a visão da PwC Brasil é que a evolução regulatória precisa acompanhar a maturidade técnica já alcançada pelo mercado. Como destaca a sócia Ana Gonçalves, “As organizações já dominam blockchain, tokenização e ativos digitais em um nível elevado. O que falta é a segurança jurídica necessária para que esses projetos ganhem escala e se tornem soluções estruturais. A clareza regulatória é o elemento que permitirá destravar investimentos e acelerar a transformação digital”. A mensagem converge com a expectativa das empresas por segurança jurídica e padrões claros, condição indispensável para reduzir o risco regulatório e atrair novos investimentos.
Com a combinação de amadurecimento técnico, foco em cibersegurança e um marco regulatório que traga previsibilidade, o Brasil pode transformar a vantagem tecnológica atual em soluções de grande escala. A pesquisa sinaliza que a próxima etapa depende menos de provas de conceito e mais de um ambiente regulatório que permita o avanço sustentado de blockchain, tokenização e ativos digitais.