IA generativa no Brasil já alcança 50 milhões de usuários, mas benefícios seguem concentrados entre os mais ricos e escolarizados, diz TIC Domicílios 2025

IA generativa no Brasil já faz parte da rotina de 32% dos usuários de Internet, o equivalente a cerca de 50 milhões de pessoas de 10 anos ou mais, segundo a TIC Domicílios 2025, lançada nesta terça-feira, 9, pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, por meio do Cetic.br do NIC.br. O estudo indica uma adoção acelerada das ferramentas de Inteligência Artificial generativa, porém acende o alerta para a concentração de benefícios entre quem tem maior renda e escolaridade.

Ao apresentar os novos indicadores sobre IA generativa no Brasil, Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br, destacou o contraste entre avanço e desigualdade. Em suas palavras, “A TIC Domicílios 2025 destaca novos indicadores sobre a adoção de Inteligência Artificial generativa entre os usuários de Internet brasileiros. À medida que a IA ganha relevância em diferentes esferas da vida cotidiana, a desigualdade na apropriação dessa ferramenta entre os diferentes estratos de renda e escolaridade torna-se um elemento que chama a atenção”, alerta.

O levantamento também confirma a melhora da conectividade nos lares, com 86% dos domicílios brasileiros conectados, alta de três pontos percentuais frente a 2024, e avanço da banda larga fixa, que atingiu 76% dos domicílios, ante 71% no ano anterior. Ainda assim, os dados reforçam desafios de inclusão digital que impactam o uso qualificado da IA.

Desigualdade no uso e impacto na educação

O uso de IA generativa no Brasil é muito mais frequente entre os mais escolarizados e com maior renda. Entre os usuários da classe A, 69% adotaram a tecnologia, proporção que cai para 16% nas classes D e E. O recorte por escolaridade repete o padrão, com 59% de uso entre quem tem Ensino Superior, ante 17% entre pessoas com Ensino Fundamental.

As ferramentas de IA têm sido acionadas principalmente para fins pessoais, motivo apontado por 84% dos que utilizaram. Na educação, o impacto é evidente, já que 86% dos estudantes recorreram à tecnologia para pesquisas ou trabalhos acadêmicos. Entre quem não usa, a falta de habilidade foi motivo mais citado por pessoas com até o Ensino Fundamental, chegando a 65%, o que reforça o risco de um ciclo de exclusão digital.

Para Fabio Storino, coordenador da pesquisa, a expansão da IA generativa no Brasil precisa vir acompanhada de condições reais de apropriação. Ele afirma: “A expansão da IA generativa evidencia os desafios da inclusão digital no Brasil. O acesso à tecnologia não basta se a conectividade for limitada, ou faltarem habilidades digitais. Esse cenário indica que os benefícios da IA, como ganhos de produtividade e novas formas de aprendizado, podem continuar concentrados nos grupos que, historicamente, já possuem mais oportunidades”, analisa.

Conectividade móvel e acesso significativo

A TIC Domicílios 2025 investigou como os limites de pacotes de dados móveis restringem o uso da Internet, o que afeta diretamente a capacidade de aproveitar a IA generativa no Brasil. Cerca de 64 milhões de brasileiros, ou 39% das pessoas com celular, disseram que o pacote terminou ao menos uma vez nos últimos três meses. O problema é mais comum em planos pré-pagos, com 52% dos usuários afetados, modalidade predominante na população de baixa renda, já que 61% das pessoas nas classes D e E com telefone celular usam pré-pago.

Quando isso acontece, 41% relatam conseguir usar apenas aplicativos específicos patrocinados, enquanto 39% ficam sem acesso a apps que costumavam utilizar. Storino reforça a ideia de conectividade significativa ao frisar que não basta estar conectado se a experiência for limitada. Como pontuou: “Os novos indicadores da TIC Domicílios sobre o pacote de dados da rede móvel trazem uma contribuição importante para o debate sobre conectividade significativa, reforçando que não basta simplesmente ter acesso, é preciso que a qualidade desse acesso permita às pessoas se apropriarem dos benefícios oferecidos pelo ambiente online”, pontua.

Apostas online, Pix e serviços públicos digitais

O estudo também mediu, pela primeira vez, o alcance das apostas online no país. 19% dos usuários de Internet, o equivalente a 30 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais, já fizeram algum tipo de aposta. A prática é mais comum entre homens, 25%, do que entre mulheres, 14%, especialmente em apostas esportivas, 12% e 2%, respectivamente. Entre as modalidades, 8% realizaram aposta em cassino online, 7% pagaram para participar de rifa digital ou sorteio divulgado em rede social ou aplicativo de mensagem, e igual proporção fez aposta esportiva por sítios ou aplicativos, ou aposta em loteria federal. Para Renata Mielli, do CGI.br, o sinal é de alerta: “Nesta TIC Domicílios, conseguimos identificar a proporção de usuários de Internet no país que já utilizou bets e fez apostas online. Um tema que tem gerado grande preocupação de toda a sociedade, não só pelo aspecto econômico, mas até o de saúde mental. E o que vemos revelado é um número que considero bastante alarmante: temos cerca de 30 milhões de pessoas acima dos 10 anos que já realizaram algum tipo de aposta online. Esse dado geral, e outros mais específicos que foram coletados, reforçam a urgência em se estabelecer mecanismos regulatórios e de literacia digital mais robustos sobre os riscos que envolvem a prática de jogos e apostas no meio digital”, defende.

O Pix se consolidou como principal ferramenta de transação digital, com 75% dos usuários de Internet utilizando o sistema. A apropriação, porém, ainda é desigual, praticamente universal na classe A, 98%, caindo para 60% nas classes D e E, diferença de 38 pontos percentuais. No setor público digital, 71% dos usuários com 16 anos ou mais acessaram serviços de governo eletrônico em 2025, e a plataforma Gov.br foi usada por 56% desse público, seja para realizar um serviço para si, 49%, para terceiros, 18%, ou com ajuda de outra pessoa, 12%.

Os números mostram que a IA generativa no Brasil avança com rapidez, mas sua plena apropriação depende de políticas de inclusão, melhorias de conectividade e letramento digital que reduzam as barreiras de renda e escolaridade. Com mais qualidade de acesso e formação de habilidades, os ganhos de produtividade e aprendizagem prometidos pela Inteligência Artificial podem chegar a todos, fortalecendo a transformação digital do país.

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