Pesquisa global com 330 NEDs revela ceticismo sobre segurança cibernética, detalha as principais ameaças ao valor para os acionistas e indica que IA e tecnologia serão as apostas para atravessar a volatilidade
Segurança cibernética segue como pauta central nos Conselhos de Administração, mas a confiança no retorno dos investimentos continua baixa. De acordo com o Gartner, Noventa por cento dos membros dos boards (Non-Executive Directors – NEDs) não têm confiança no valor da segurança cibernética. Apenas 10% expressam forte confiança, dizendo que alcançaram o equilíbrio certo entre proteção e custo.
O levantamento, que registra a temperatura real dos conselhos, também sugere um ponto de virada. Segundo o Gartner, o ceticismo dos NEDs é um catalisador de mudança, especialmente quando CIOs e CISOs conseguem traduzir a complexidade técnica de segurança cibernética em linguagem de negócio, com foco em receita, custos e impacto para os acionistas. Nesse movimento, surgem líderes que formam uma espécie de “elite” da segurança, ao conquistarem o consenso do board sobre níveis “adequados” de proteção e custo.
O estudo traz recorte global e metodologia detalhada. A 2026 Gartner Board of Directors Survey foi realizada de 14 de abril a 22 de maio de 2025 com 330 entrevistados da América do Norte, América Latina, Europa e Ásia/Pacífico, que são membros dos boards em empresas privadas ou públicas.
Para ilustrar por que a confiança vacila, a analista do Gartner Kristin Moyer enfatiza que a ponte entre investimento e resultado ainda é frágil. “Os Conselhos de Administração muitas vezes têm dificuldade em conectar os investimentos em segurança cibernética a resultados reais de negócios”, diz Moyer. “Dashboards e atualizações de conformidade podem confundir em vez de tranquilizar, deixando os NEDs incertos sobre se sua organização está realmente mais segura. Os CIOs e CISOs sensatos obtêm o consenso do conselho sobre os níveis adequados de proteção e custo, traduzindo a complexidade da segurança cibernética em valor para os negócios, como receita, custo e impacto para os acionistas.”
Por que a confiança desabou e como reconstruí-la
A pesquisa aponta que muitos boards ainda recebem informações operacionais, por vezes excessivamente técnicas, sem conexão clara com indicadores financeiros e métricas de risco corporativo. Quando relatórios de segurança cibernética se limitam a conformidade, sem demonstrar redução de exposição, os NEDs tendem a ficar céticos.
Para reverter esse cenário, o Gartner observa que os CIOs e CISOs que se destacam alinham expectativas de proteção e custo com uma narrativa orientada a valor. Eles fornecem transparência sobre níveis reais de exposição e prontidão a ameaças, evitando generalidades e detalhando cenários de impacto em receita, margem e valor para os acionistas. Essa abordagem, mais estratégica e menos técnica, ajuda o conselho a tomar decisões informadas e sustentáveis.
Ameaças que mais preocupam os boards em 2025
Embora o foco em segurança cibernética cresça, os conselheiros analisam um tabuleiro de riscos mais amplo. Setenta por cento dos NEDs identificaram a instabilidade geopolítica e os conflitos internacionais como as ameaças externas mais significativas ao valor para os acionistas nos próximos 12 meses. Além disso, um em cada três NEDs considerou os riscos cibernéticos, as rupturas tecnológicas e os desafios da inovação como as principais ameaças externas no próximo ano.
Esse pano de fundo ajuda a explicar a ansiedade dos boards, já que incidentes cibernéticos podem amplificar efeitos de crises geopolíticas e tecnológicas. Segundo o Gartner, muitos conselheiros querem sair das tendências genéricas e entender, com transparência, como determinadas ameaças se traduzem em risco mensurável para seus negócios, inclusive com simulações de impacto financeiro e planos de resposta.
Nesse contexto, a executiva Tina Nunno, do Gartner, destaca a pressão regulatória e a disrupção da Inteligência Artificial. “Praticamente todos os NEDs já passaram por uma violação de segurança cibernética, seja como líderes executivos ou durante seu mandato como membros do board”, diz Nunno. “Novas regulamentações de segurança colocaram esse tema em destaque nas agendas dos board. Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial (IA) está causando uma disrupção significativa nos negócios — e ganhou considerável atenção dos Conselhos de Administração.”
IA, risco e alavanca de valor, o que os conselhos esperam
Apesar de perceberem a tecnologia como risco emergente, os conselheiros a veem também como alavanca para atravessar a volatilidade global. Sessenta e três por cento dos NEDs afirmaram que o investimento em tecnologia e inovação é a melhor maneira de combater a volatilidade atual, sinalizando que IA, automação e dados devem ganhar ainda mais espaço nos portfólios de transformação.
Nunno reforça essa tendência. “A maioria dos NEDs não só acredita que o investimento em tecnologia é uma estratégia fundamental para lidar com a volatilidade, como também que a maior parte desses investimentos deve ser feita em Inteligência Artificial”, afirma. “A IA foi classificada como o investimento número um (57% dos entrevistados) com potencial de impactar positivamente o valor para os acionistas nos próximos dois anos, à frente do investimento em novos produtos e serviços (56%) e fusões e aquisições (45%). Os NEDs perceberam as vastas somas de dinheiro que estão sendo investidas em startups de IA e Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) e acreditam que, com o tempo, pelo menos algumas dessas apostas em Inteligência Artificial darão certo. “A maioria dos membros dos boards (71%) gostaria de ver suas empresas assumirem mais riscos tecnológicos e está incentivando ativamente seus Chief Executive Officers (CEOs) e equipes executivas a demonstrar que têm uma estratégia de IA e estão agindo com rapidez suficiente.”
Para as empresas, a mensagem é clara. Segurança cibernética precisa estar integrada à estratégia de crescimento e à agenda de inovação em IA, com métricas que conectem proteção a retorno financeiro e resiliência operacional. Ao transformar indicadores técnicos em linguagem de negócio, CIOs e CISOs podem reduzir o ceticismo, acelerar decisões de investimento e fortalecer a confiança do conselho na jornada digital.