Pressão regulatória, disputa por espaço e demanda por conectividade mantêm o excesso de cabos nos postes no centro do debate, com fiscalização mais rígida ganhando força enquanto soluções definitivas esbarram em custos e regulação
O excesso de cabos nos postes transformou-se em um dos temas mais sensíveis da infraestrutura urbana brasileira. Nas principais cidades, o emaranhado de fios, caixas e equipamentos afeta a estética, pressiona a segurança pública e compromete a eficiência dos serviços de telecom, além de atrapalhar a mobilidade. Em 2025, a pauta ganha novo fôlego, impulsionada por demandas de conectividade e pela disputa por espaço em ativos compartilhados.
Na prática, a multiplicação de redes de operadoras e ISPs, somada ao abandono de trechos inativos, sustenta um cenário que ainda está longe de uma solução definitiva. O resultado é um tabuleiro complexo, onde custos, regulação e engenharia de rede precisam andar lado a lado para reduzir a poluição visual e elevar a qualidade do serviço.
Segurança, custos e atrasos: os impactos do emaranhado de fios
De acordo com Sebastião Rezende, gerente comercial da Fibracem, o problema não é apenas estético. Ele descreve um panorama de saturação e abandono de infraestrutura: “Hoje, temos postes com mais de 20 cabos, quando o ideal seria quatro ou cinco. E muitos desses cabos estão inativos, abandonados por provedores de internet (ISPs) que trocaram de rota ou encerraram contratos com clientes”. O próprio especialista reconhece a pressão da demanda: “Por outro lado, para atender à demanda por internet, que está cada dia mais forte, essa quantidade ideal de cabos não seria suficiente”.
Na operação diária, o excesso de cabos nos postes atrapalha a identificação de rotas, aumenta o tempo de instalação e manutenção e eleva custos. Segundo Rezende, o efeito é imediato na produtividade de campo: o trabalho que levaria uma hora pode demorar o dobro só para identificar o cabo correto.
Os riscos à população também se acumulam. Rezende alerta: “Não só isso, ele [o excesso de cabos] também pode trazer riscos diretos para a população, pois cabos pendurados ou mal fixados podem causar acidentes com pedestres e ciclistas, por exemplo. Em casos mais graves, cordoalhas metálicas podem estar energizadas por contato indevido com redes elétricas e, com isso, oferecer risco de choque”. Em cenários de grande circulação, esses pontos críticos acrescentam tensão à rotina urbana.
Fiscalização imediata e redes mais inteligentes: o que dá para fazer já
Entre medidas de curto prazo, a fiscalização mais rígida e frequente desponta como caminho viável para reduzir rapidamente a desorganização nas rotas e caixas de distribuição. A avaliação é direta: “Fiscalização mais rígida e frequente é vista como uma medida eficaz e de curto prazo que pode contribuir para a despoluição visual.”
Na visão de Rezende, a exigência de regularização, com prazos e cortes efetivos, tende a forçar a conformidade das redes, inibindo cabos ociosos e instalações improvisadas. Ele ressalta também o papel da engenharia: “Além disso, a adoção de projetos de rede mais estruturados, com uso racional de caixas e pontos de distribuição, pode reduzir consideravelmente o volume de equipamentos nos postes”.
No campo técnico, soluções como as Caixas de Terminação Óptica (CTO) de maior capacidade já estão disponíveis no mercado, com modelos que atendem até 24 assinantes e podem substituir duas caixas menores, o que racionaliza espaço e diminui a quantidade de elementos visuais no poste. Ao escalar esse tipo de padrão, operadoras e ISPs conseguem ganhos de organização e manutenção, além de um impacto direto na despoluição visual.
Subterrâneo custa caro e aluguel de postes acirra a disputa
Se o cabeamento subterrâneo aparece como “sonho de consumo” em termos de estética e segurança, a realidade financeira ainda pesa mais. Rezende é categórico ao medir custo e benefício: “É uma solução plausível do ponto de vista visual, mas a conta não fecha. No Brasil, ainda é muito mais barato lançar cabos nos postes”. O investimento elevado de implantação e o cronograma de obras complexas mantêm o cabeamento subterrâneo mais como tendência de nicho do que como padrão massivo no curto prazo.
Outro vetor que influencia o excesso de cabos nos postes é o aluguel de infraestrutura. A discussão sobre a padronização de tarifas, que varia entre estados e concessionárias, demanda equilíbrio para não se tornar um “tiro no pé” da despoluição visual. Segundo Rezende, distorções em contratos antigos e diferenças regionais podem empurrar o mercado para atalhos que ampliam a irregularidade.
O alerta do especialista chega com precisão cirúrgica: “Essa variação impacta a competitividade entre provedores de internet e pode, mesmo que indiretamente, estimular práticas irregulares, com ISP preferindo lançar cabo sem pagar aluguel, assumindo o risco de corte, porque o custo fixo é alto e, com isso, aumentando a quantidade de cabeamento irregular e, consequentemente, a poluição visual”. Em outras palavras, sem calibrar preço, fiscalização e prazos de adequação, a pressão econômica tende a alimentar o problema que se deseja resolver.
Enquanto soluções definitivas não ganham tração, a combinação de fiscalização efetiva, padronização de projetos e uso de equipamentos de maior capacidade surge como a agenda mais pragmática. Para reduzir o excesso de cabos nos postes e os riscos associados, o setor de telecom precisa avançar na organização das redes, atacando cabos inativos e a ocupação irregular, ao mesmo tempo em que mantém a expansão da conectividade com melhor planejamento.
O equilíbrio entre custo, qualidade e segurança deve pautar as decisões em 2025. Até lá, sem coordenação entre empresas, reguladores e concessionárias, a cidade segue olhando para cima e vendo, nos postes, o retrato de um desafio que pede resposta rápida e sustentável.