A disponibilidade de talentos em IA virou um dos principais entraves para a transformação digital no Brasil. Um estudo da Zappts, que ouviu 1.233 corporações dos setores de Serviços, Tecnologia, Finanças, Varejo e Indústria, indica que a adoção de inteligência artificial no país ainda está em fase de consolidação, com muitas empresas explorando possibilidades ou conduzindo pilotos. Nesse contexto, 75,8% das organizações classificam a disponibilidade de talentos em IA como “insuficiente”, enquanto 20,2% a consideram “suficiente” e apenas 4% a veem como “adequada”.
O retrato evidencia um quadro de escassez de profissionais qualificados em IA, o que afeta diretamente a capacidade de escalar projetos e capturar valor de casos de uso de automação, análise avançada e modelos generativos. A percepção de insuficiência aparece com intensidade justamente onde a demanda é maior, reforçando o desalinhamento entre a velocidade das iniciativas tecnológicas e a formação de especialistas.
A avaliação setorial confirma o desequilíbrio. No setor de Tecnologia, 71,4% consideram a disponibilidade insuficiente, seguido por Finanças, com 58,8%, Serviços, com 54,5%, e Varejo, com 56,2%. A Indústria apresenta o cenário relativamente mais favorável, com 35,7% relatando insuficiência e 28,6% apontando disponibilidade adequada, embora também enfrente desafios para compor times multidisciplinares em IA.
Para Rodrigo Bornholdt, CTO e cofundador da Zappts, a urgência é inequívoca. “A falta de talentos especializados, é hoje, um dos principais obstáculos para o avanço da IA. Superá-lo exigirá ações estruturadas de formação, parcerias com o ecossistema educacional e estratégias de retenção e upskilling, com objetivos de médio e longo prazo em cada empresa.” Diz Rodrigo Bornholdt, CTO e Cofundador da Zappts.
Talentos em IA por setor, onde a pressão é maior
Os números revelam que a disponibilidade de talentos em IA é mais crítica no ecossistema que tradicionalmente lidera a inovação. Em Tecnologia, empresas correm para modernizar produtos e infraestrutura, porém esbarram na contratação de profissionais com experiência em machine learning, engenharia de dados e MLOps. Em Finanças, onde a busca por automação, crédito mais preciso e detecção de fraudes é intensa, mais da metade das organizações relatam insuficiência.
Em Serviços e Varejo, a pressão vem da personalização, do atendimento inteligente e da melhoria de eficiência operacional, o que exige times capazes de conectar dados a modelos produtivos. Já a Indústria, ainda que em melhor posição relativa, convive com o desafio de integrar IA a cadeias produtivas e programas de manutenção preditiva, o que demanda especialistas híbridos, que dominem tanto processos fabris quanto modelos de IA.
Como as empresas reagem à escassez e aceleram a capacitação
Diante da percepção generalizada de que há carência de especialistas, cresce a aposta em iniciativas de formação e retenção. Segundo o levantamento, 47,6% das empresas adotaram programas de treinamento interno para qualificação em IA, estratégia vista como caminho direto para desenvolver competências a partir da própria base de colaboradores. Em paralelo, 45,2% investiram na participação em conferências e workshops, ampliando a exposição a tendências, e 33,1% oferecem incentivo à educação continuada, estímulo essencial para atualização constante.
O movimento inclui ainda a atração de experiência externa, com 29,9% investindo na contratação de especialistas, o fortalecimento de parcerias com instituições acadêmicas em 24,2% das empresas e a criação de centros de excelência em 23,4%, estruturas que funcionam como hubs de boas práticas, governança e reuso de componentes. Mesmo assim, chama atenção o contingente de 20,2% que não adotou nenhuma iniciativa até agora, o que acende alerta para a necessidade de planos estruturados.
Esse conjunto de ações revela um consenso: sem ampliar a disponibilidade de talentos em IA, o salto de pilotos para produção ficará mais lento, e a captura de valor, limitada. A combinação de upskilling, recrutamento e cooperação com o ecossistema educacional aparece como o eixo mais promissor para reduzir o gargalo.
O que falta para destravar projetos e sustentar a evolução
Para ir além do curto prazo, líderes apontam a importância de estratégias de médio e longo horizonte, com metas claras de formação e retenção. Bornholdt resume essa visão ao destacar que pessoas seguem no centro da transformação. “A verdadeira revolução da tecnologia no Brasil não será movida somente com os algoritmos, isso porque precisa de pessoas capazes de compreendê-los, aprimorá-los e usá-los. A capacitação em inteligência artificial, também é um investimento na inteligência humana, desperta a curiosidade, criatividade e a capacidade crítica de um profissional. Por isso, formar esses talentos é prepará-los para esse novo tempo e garantir que a tecnologia seja instrumento de desenvolvimento.” Finaliza Rodrigo.
O estudo reforça que a adoção de IA no Brasil acontece, em grande parte, em fases iniciais, com organizações testando e explorando possibilidades. Para acelerar a travessia rumo à escala, será crucial ampliar a disponibilidade de talentos em IA, fortalecer a governança, padronizar fluxos de MLOps e fomentar um ambiente de colaboração entre empresas, universidades e provedores de tecnologia.
À medida que iniciativas de treinamento interno, parcerias acadêmicas e centros de excelência amadurecem, a expectativa é que o país reduza a distância entre ambição e execução, levando a IA do laboratório para o negócio com impacto mensurável e sustentável.