Fusões e aquisições no Brasil: alta de 13% até agosto de 2025, setor financeiro dispara 110% e tecnologia guia consolidações

Queda dos juros, previsibilidade e capital de private equity destravam negociações

As fusões e aquisições no Brasil entraram em um ciclo de retomada seletiva em 2025, sustentado por maior previsibilidade econômica, taxa de juros em queda e estratégias mais cirúrgicas. Até agosto, o país registrou 954 transações, uma alta de 13% em relação a 2024, segundo levantamentos de PwC e KPMG. O movimento combina apetite de investidores, sobretudo de private equity, e a busca por ativos com fundamentos sólidos, inovação e capacidade de escalar.

Nesse ambiente, o mercado de M&A tem priorizado qualidade, não apenas volume. A leitura é de que a janela de liquidez se reabriu de forma gradual, com foco em setores resilientes e com ganhos de eficiência visíveis. O cenário mais benigno, com inflação sob controle e horizonte fiscal mais claro, também reduziu incertezas e levou empresas a reativarem planos de crescimento inorgânico.

A avaliação de executivos e assessores converge. Segundo David John Denton, especialista em M&A da Okto Finance, a melhora das condições reduziu assimetrias na mesa de negociação. Nas palavras do executivo, “A redução dos juros e a maior previsibilidade macroeconômica diminuíram o desalinhamento de expectativas entre compradores e vendedores, o que facilita a conclusão das transações”. Para ele, a combinação de juros menores, estabilidade macroeconômica e o capital acumulado por fundos de private equity pavimenta um mercado ainda mais ativo em 2026.

Setor financeiro puxa retomada com salto de 110%

Entre os destaques do ano, o setor financeiro lidera a retomada das fusões e aquisições no Brasil. De janeiro a agosto, foram 143 operações na vertical, um crescimento de 110% ante o mesmo período de 2024, de acordo com PwC e KPMG. O número reflete um processo de consolidação estratégica, no qual players buscam escala, sinergias e diversificação de receitas, ao mesmo tempo em que aceleram investimentos em tecnologia, dados e experiência do cliente.

A busca por ativos de maior qualidade também é perceptível no crivo dos compradores. Como resume Denton, “Estamos observando uma maior seletividade nas operações, com foco em empresas que apresentam potencial de crescimento sustentável e inovação tecnológica. Setores como inteligência artificial, fintechs, healthtechs e energia renovável estão atraindo tanto investidores nacionais quanto estrangeiros, o que indica uma tendência de consolidação estratégica”. O comentário reforça o papel do financeiro como eixo de integração com tecnologia, inclusive com fintechs de nicho e plataformas de serviços digitais.

Esse pano de fundo é reforçado pela atuação mais intensa de private equity em 2025, tanto em novas aquisições quanto em oportunidades de saída. Com capital disponível e teses maduras, os fundos têm ajudado a destravar negociações, imprimindo ritmo e disciplina a processos competitivos, ao mesmo tempo em que priorizam governança e criação de valor no pós-fusão.

Tecnologia e dados viram prioridade nas teses de M&A

A demanda por tecnologia se consolidou como um dos principais motores das fusões e aquisições no Brasil em 2025, indicando uma mudança estrutural na forma como empresas e investidores enxergam eficiência e competitividade. A avaliação de Denton é direta ao apontar que digitalização, segurança e escalabilidade passaram ao centro das decisões de investimento.

Ele destaca, com todas as letras: “O interesse por companhias ligadas a inteligência artificial, cibersegurança e transformação digital cresce de maneira consistente, impulsionado pela necessidade de ganho de eficiência, escalabilidade e proteção de dados. Essas áreas deixaram de ser vistas como iniciativas complementares e passaram a ocupar um papel central na estratégia dos negócios, influenciando diretamente decisões de aquisição e consolidação”. Na prática, isso significa processos de diligência mais robustos em tecnologia, sinergias operacionais mais claras e métricas de retorno mais alinhadas a produtividade e recorrência de receitas.

Esse filtro tecnológico dialoga com a visão de qualidade dos ativos que chegam ao mercado, favorecendo empresas com modelo de negócio resiliente, capacidade de inovação e governança. Em paralelo, o ambiente competitivo impulsiona a integração entre verticais, como fintechs, healthtechs e energia renovável, que ganham tração entre investidores locais e estrangeiros.

2026 deve manter tração, mas calendário eleitoral pede cautela

O consenso entre analistas é de continuidade do ciclo de fusões e aquisições no Brasil em 2026, ainda que com momentos de maior cautela. O calendário eleitoral, no país e em outras economias relevantes, tende a influenciar o ritmo das negociações, especialmente no primeiro semestre, quando investidores aguardam maior clareza sobre diretrizes econômicas, fiscais e regulatórias.

A avaliação de Denton é que, embora decisões possam demorar mais, as operações estruturais não perdem tração. Como ele enfatiza, “As eleições aumentam a volatilidade e podem postergar anúncios, mas a tese de investimento permanece sólida em setores como infraestrutura, energia, tecnologia e logística, que seguem atraindo capital mesmo em cenários de maior incerteza”. Com isso, a expectativa é de pipeline robusto, sobretudo em ativos com crescimento previsível, margens defensáveis e forte componente tecnológico.

Em síntese, 2025 marca a reabertura de uma janela mais madura para fusões e aquisições no Brasil, com investidores privilegiando qualidade, tecnologia e governança. Com juros em patamar mais baixo, previsibilidade macroeconômica e dry powder relevante em private equity, o mercado entra em 2026 com viés positivo, ainda que atento ao ruído eleitoral e a eventuais ajustes de preço e timing nas transações.

Rolar para cima