Interrupção dos negócios lidera os riscos na região, seguida por mudanças regulatórias e ciberataques, segundo a Pesquisa Global de Gestão de Riscos 2025 da Aon
A Pesquisa Global de Gestão de Riscos 2025 (GRMS), divulgada pela Aon, mostra que as empresas da América Latina operam em um ambiente de risco excepcionalmente complexo, marcado pela convergência de pressões econômicas, políticas e ambientais. Para a maioria das organizações, essa combinação afeta desafios imediatos, como a interrupção dos negócios e da cadeia de suprimentos, e pode se transformar, no longo prazo, em oportunidades estratégicas para aumentar a competitividade.
O diagnóstico ajuda a explicar por que a interrupção dos negócios aparece como o principal risco regional, com mudanças regulatórias ou legislativas em segundo lugar e ataques cibernéticos ou vazamentos de dados na terceira posição. Ao mesmo tempo, o relatório sinaliza que a volatilidade estrutural já molda as decisões de investimento, compliance e tecnologia.
Em uma síntese do momento, a Aon registra: “O aumento do risco comercial e operacional na América Latina revela uma nova realidade: a volatilidade e a incerteza são agora constantes para as empresas. Antes, a resiliência consistia em sobreviver aàs ameaças e seus impactos. Agora, trata-se de aproveitá-las para fortalecer a competitividade. As organizações latino-americanas que repensarem sua gestão de riscos serão as que liderarão”, afirmou o head de Commercial Risk para a América Latina na Aon.
Por que a interrupção dos negócios domina a agenda corporativa
De acordo com a pesquisa, a interrupção dos negócios segue no topo devido à exposição a crises geopolíticas, eventos climáticos extremos, dependência de rotas comerciais globais e fragilidade de infraestrutura. Economias como Brasil, Argentina, Chile e México dependem amplamente de exportações, de produtos agrícolas à manufatura, o que amplia a suscetibilidade a quebras na cadeia de abastecimento. O impacto vai além das perdas financeiras diretas, afetando a confiança de clientes e relações com fornecedores.
Para mitigar esses efeitos, empresas estão diversificando sua base de fornecedores, investindo em tecnologias de visibilidade da cadeia e em planos robustos de continuidade, além de avaliar seguros de contingência contra interrupção de negócios. Essa combinação busca fortalecer a resiliência operacional em uma região onde a interrupção dos negócios é uma ameaça recorrente.
Mudanças regulatórias, instabilidade política e o efeito dominó
As mudanças regulatórias e legislativas, segundo maior risco atual, estão intrinsecamente ligadas à instabilidade política latino-americana, criando um ambiente de negócios imprevisível. Em resposta, organizações têm ajustado planos de investimento, reforçado áreas de compliance e adotado planejamento de cenários que sustentem a continuidade operacional diante de alterações legais frequentes e, muitas vezes, abruptas.
O relatório indica que a navegação desse cenário exige monitoramento contínuo da evolução política e geopolítica, com governança que conecte jurídico, finanças, operações e tecnologia. Na prática, isso significa antecipar impactos em custos, prazos e processos, além de revisar apólices, cláusulas contratuais e estratégias de gestão de riscos para preservar margem e competitividade.
Ciberataques e a aceleração digital: do reativo ao proativo
Os ataques cibernéticos e os vazamentos de dados ocupam o terceiro lugar entre os riscos atuais, mas sobem para o primeiro entre os riscos futuros. Apenas 15% dos entrevistados quantificam sua exposição ao risco cibernético, um dado que evidencia a urgência de amadurecer processos de gestão de risco digital. A rápida adoção de plataformas digitais e de inteligência artificial (IA) ampliou a superfície de ataque, exigindo estratégias que unam prevenção, resposta a incidentes e transferência de risco.
Segundo a Aon, o aumento dos incidentes potencializados por IA tem levado executivos a abandonar o improviso e a adotar posturas proativas, com maior integração entre segurança, continuidade de negócios e seguros. Entre os riscos futuros mais citados até 2028, além de ataques cibernéticos, aparecem aumento da concorrência, volatilidade no preço de matérias-primas e mudanças regulatórias, seguidos por interrupção dos negócios, mudanças climáticas, risco político, desaceleração econômica, fluxo de caixa e liquidez e a própria inteligência artificial como vetor de risco e transformação.
O componente climático merece destaque. 80% dos entrevistados na região afirmaram ter sofrido perdas econômicas devido a eventos meteorológicos ou desastres naturais nos 12 meses anteriores à pesquisa, o que reforça a vulnerabilidade da América Latina a furacões, inundações catastróficas e secas prolongadas. Para reduzir impactos, empresas vêm priorizando infraestrutura resiliente, sistemas de alerta precoce, modelagem climática e seguros paramétricos que aceleram indenizações e a retomada operacional após desastres.
Na visão da Aon, transformar incerteza em vantagem competitiva é um diferencial. Como resume a executiva da empresa: “Para enfrentar o panorama de ameaças presentes e futuras na América Latina, as empresas devem adotar uma abordagem proativa e integrada na gestão de riscos. As condições voláteis e mutáveis oferecem a oportunidade de transformar o risco em resiliência. Ao repensar sua abordagem e investir em novas estratégias, elas podem proteger suas organizações e abrir novos caminhos para o crescimento”, concluiu Natalia Char.
Com 19 anos de histórico, a GRMS consolidou-se como um termômetro de prioridades executivas. Na edição de 2025, foram cerca de 3.000 respostas de 63 países, mas ainda há espaço para evolução no uso de dados. O levantamento mostra que apenas 14% acompanham sua exposição aos dez principais riscos e apenas 19% utilizam análise de dados para avaliar seus programas de seguros. Em um cenário de interrupção dos negócios recorrente, instabilidade regulatória e avanço de ciberataques, a adoção de métricas, modelagem e inteligência de dados tende a diferenciar quem apenas reage de quem se antecipa e cresce com resiliência.