Treinamento de IA no Brasil: 64% dos profissionais pagariam do próprio bolso, mas investimento de empresas e governo não acompanha, aponta estudo da Salesforce

O Brasil vive um ponto de inflexão na capacitação para inteligência artificial. Segundo um novo levantamento da Salesforce em parceria com a Morning Consult, há uma forte disposição individual para aprender e aplicar IA no dia a dia profissional, mas o ritmo de apoio institucional, nas empresas e no setor público, ainda não acompanha essa demanda. A pesquisa indica que 64% dos profissionais brasileiros dizem que investiriam do próprio bolso em treinamento de IA, enquanto 66% defendem mais investimento em IA e 54% já consideram seus locais de trabalho preparados para utilizar ferramentas de IA.

Os números colocam o país entre os maiores entusiastas do tema no mundo, reforçando que a busca por treinamento de IA, upskilling e reskilling ganhou tração em 2025. Em paralelo, cresce o sentimento de que as instituições precisam acelerar, do orçamento à oferta de programas reconhecidos e acessíveis, para transformar aprendizado em empregabilidade, produtividade e competitividade.

Brasil se destaca na América Latina, porém o apoio institucional ainda é lento

Na América Latina, a prontidão e o apetite por capacitação em IA aparecem com força, ainda que de forma desigual. O estudo mostra que o Brasil lidera a região em prontidão no trabalho, com 54% dos profissionais afirmando que seus países já estão preparados para usar IA, seguido por México (50%) e Argentina (43%). Além disso, a disposição pessoal para investir em capacitação fica entre 57% e 64% nos principais mercados latino-americanos, um indicativo de que, mesmo com pressões econômicas, existe motivação concreta para aprender.

Globalmente, a tendência é parecida: 64% apoiam maior investimento em qualificação de forma geral e 53% pedem treinamento específico em IA. A muitos, não falta iniciativa própria, com 45% planejando aumentar seus gastos pessoais em aprendizado de IA no próximo ano e quase dois terços afirmando que fariam cursos de IA se houvesse descontos ou apoio financeiro por parte dos governos. Esses sinais reforçam o valor de políticas públicas e programas corporativos que reduzam barreiras de custo, ampliem acesso e gerem impacto direto na carreira.

Apesar disso, o avanço institucional é percebido como aquém do necessário. O estudo aponta que apenas um terço dos profissionais espera ver suas empresas investirem mais em capacitação de IA nos próximos 12 meses. Além disso, somente 29% afirmam que suas organizações já investem o suficiente em treinamento de IA e 28% acreditam que seus governos investem o bastante em programas de qualificação. Em economias avançadas, a confiança é ainda menor, com “nos EUA, apenas 28% consideram suficiente o gasto nacional em habilidades de IA” e, “no Reino Unido, esse percentual cai para 22%.”

Vontade de aprender cresce, mas é preciso conectar qualificação a progressão de carreira

Se a demanda por treinamento de IA está clara, a expectativa dos profissionais também envolve qualidade, reconhecimento e vínculo com oportunidades reais. O recado da pesquisa é direto: os trabalhadores querem programas acessíveis, certificados reconhecidos e trilhas que conectem habilidades a progressão de carreira. Nesse contexto, empresas e governos são chamados a acelerar iniciativas de qualificação, aumentar parcerias com o ecossistema educacional e fomentar a adoção responsável de IA no ambiente de trabalho.

Para além de preencher vagas técnicas, a capacitação em inteligência artificial é vista como uma estratégia de produtividade e confiança. Ao ampliar o acesso a cursos, mentorias e certificações, organizações tendem a fortalecer a retenção de talentos, ganhar velocidade de adoção e reduzir riscos, especialmente em temas como segurança, governança de dados e ética na IA. No setor público, subsídios, vouchers e incentivos fiscais podem destravar a participação de quem ainda está à margem do mercado digital.

Como sintetiza a própria pesquisa, o impulso individual está colocado, resta transformar essa energia em resultados tangíveis, com calendários e metas que aproximem o aprendizado de resultados de negócio mensuráveis.

“Ninguém pode ficar para trás”: colaboração e escala para o treinamento de IA

Ao comentar os achados, Pedro Brasileiro, gerente de relações governamentais da Salesforce no Brasil, reforça a urgência de coordenação entre os atores do ecossistema, do setor privado ao Estado e à academia. Em suas palavras, “Transformar o desenvolvimento de habilidades em uma progressão de carreira consistente exige coordenação. A colaboração entre empresas, governos, academia e sociedade civil é essencial para fechar lacunas de prontidão, garantir práticas responsáveis de IA e criar caminhos concretos entre treinamento e oportunidades de emprego. Investir em treinamento não é apenas sobre preencher vagas técnicas. É sobre construir confiança, impulsionar competitividade e tornar a adoção de IA sustentável. Empresas que demorarem correm o risco de perder talento e confiança. A prioridade agora deve ser que negócios e governos escalem treinamento, certificação e suporte para que ninguém fique para trás.”

A fala resume o desafio central do momento: escalar treinamento de IA, ampliar certificações e oferecer suporte financeiro para que mais pessoas tenham acesso à qualificação, com foco em resultados e responsabilidade. Com profissionais prontos para investir tempo e recursos, o próximo passo depende de liderança institucional e políticas públicas consistentes.

Metodologia: o estudo se baseou em pesquisas duplo anônimas conduzidas pela Morning Consult entre 21 e 26 de agosto de 2025, com amostra da população geral em 13 países, incluindo Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, França, Alemanha, Índia, Itália, Arábia Saudita, México, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos. Ao todo, foram coletadas 14.231 respostas, com cerca de 1.100 entrevistas por mercado.

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