Violência digital contra mulheres: quase metade das líderes relata ataques online no Brasil, aponta KPMG

Levantamento com executivas expõe a escala e os impactos da violência digital contra mulheres

Um novo levantamento da KPMG, divulgado pelo TI Inside, acende um alerta sobre a violência digital contra mulheres em posições de liderança no Brasil. Concluído neste ano, o estudo mostra um cenário preocupante de assédio e ataques em ambientes online, com efeitos diretos na saúde mental e na atuação profissional de executivas. O retrato também dialoga com tendências de ESG, diversidade e transformação digital, ao revelar percepções e prioridades corporativas diante desse desafio.

De acordo com a pesquisa, quase metade (48,8%) das líderes entrevistadas já vivenciou ou presenciou violência em plataformas digitais (17,1% e 31,7%, respectivamente). Os dados reforçam como o problema é disseminado e atinge tanto vítimas diretas quanto aquelas que testemunham agressões no dia a dia online, um ambiente que mistura exposição pública, dinâmica de trabalho e redes sociais.

As formas mais comuns relatadas dessas ocorrências incluem personificação/falsa identidade (55%), discurso de ódio (45%) e difamação (35%). Em muitos casos, a agressão parte do anonimato, mas os ataques também se estendem a círculos profissionais, aumentando a sensação de vulnerabilidade e insegurança.

Quanto à autoria, a maioria dos incidentes foi praticada por desconhecidos (76,5%), mas também houve registros de agressões por colegas de trabalho (41,2%) e conhecidos ocasionais (29,4%). Esses números expõem o risco ampliado para mulheres em ambientes digitais, inclusive quando a fronteira entre vida pessoal e profissional é tênue.

Tipos de ataques, autoria e como as vítimas reagem

A resposta imediata das executivas revela uma tendência para medidas defensivas dentro das plataformas. 57,1% das entrevistadas bloquearam o agressor, porém apenas 28,6% o denunciaram à plataforma. A discrepância sugere que a subnotificação ainda é uma realidade, seja por descrédito na efetividade de denúncia, medo de retaliação ou falta de clareza sobre os mecanismos de proteção disponíveis.

No recorte de América do Sul, a fotografia é semelhante. O estudo indicou que 41,7% das executivas sul-americanas já vivenciaram ou presenciaram agressões como difamação, discurso de ódio e personificação/falsa identidade. A autoria se concentra em desconhecidos (77,4%) e colegas de trabalho (25,8%). Para cessar os ataques, elas adotaram ações como bloquear o agressor (53,8%) ou alterar configurações de privacidade (23,1%), sinalizando esforços para conter danos e recuperar a segurança no ambiente online.

Impactos emocionais e o alerta de especialistas

Os efeitos emocionais relatados pelas executivas são expressivos. Segundo o levantamento, quase 60% relataram estresse, 42,9% mencionaram desconforto e 28,6% apontaram ansiedade. Esses impactos vão além do momento do ataque, podendo se estender por longos períodos, com repercussões na produtividade, na autoestima e na disposição para a exposição pública necessária em funções de liderança.

A avaliação de especialistas reforça essa preocupação. Para Janine Goulart, sócia de People Services da KPMG no Brasil, “A pesquisa sinalizou que há diversos tipos de agressões no ambiente digital, desde práticas sutis até violações graves da privacidade, que podem comprometer a saúde emocional de forma persistente e silenciosa, sobretudo em um contexto de alta exposição pública e de exigência constante de performance. Este tipo de agressão tem contribuído de maneira significativa para o aumento de estresse, ansiedade e sensação de impotência por parte das executivas”. A fala evidencia a necessidade de protocolos internos, suporte psicológico e cooperação das plataformas para reduzir danos e promover responsabilização efetiva.

Diversidade, ESG e transformação digital: sinais de alerta e prioridades

O levantamento também identificou um retrocesso em diversidade, equidade e inclusão. Entre as entrevistadas, apenas 7,7% notaram avanços nesses indicadores, enquanto mais de 65% afirmaram ter enfrentado preconceito no ambiente de trabalho nos últimos três anos. Esses dados colocam pressão sobre organizações que publicamente assumem compromissos com a igualdade, mas ainda enfrentam lacunas entre discurso e prática.

Na agenda de ESG, as executivas apontaram que as estratégias têm maior impacto na construção de relacionamentos com clientes e na associação positiva com a marca (52%), enquanto apenas 18% acreditam que essas iniciativas fortalecem o engajamento das pessoas e a proposta de valor ao empregado. O recado é claro: é preciso aproximar as métricas ESG do cotidiano de quem vive a cultura corporativa, com políticas mais tangíveis de segurança digital, acolhimento e combate a violências online.

Ao olhar para a inteligência artificial, a pesquisa indica que mais de 44,3% das participantes priorizam o investimento nessa tecnologia em tempos de crise. Os principais benefícios percebidos são o aumento da eficiência e da produtividade (53,8%) e a análise de dados mais rápida (11,5%). Em paralelo, a violência digital contra mulheres impõe a necessidade de que a transformação digital venha acompanhada de governança, educação midiática e compliance robusto, para mitigar riscos e proteger lideranças femininas em espaços online.

O conjunto de evidências apresentado pela KPMG, e reportado pelo TI Inside, reforça que a violência digital contra mulheres é um problema estrutural, com desdobramentos emocionais e profissionais. A efetividade das respostas, de bloqueio a denúncias, e a integração de práticas ESG com políticas claras de proteção e diversidade serão decisivas para reduzir a incidência de ataques e fortalecer ambientes digitais mais seguros e inclusivos.

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