SpyLoan no Brasil: golpe que usa celular como garantia de empréstimo cresce 43 vezes em dois anos, aponta Kaspersky

Aplicativos SpyLoan somam 88 mil bloqueios no país, Brasil é o 2º mais atacado na América Latina e “mercado paralelo” de desbloqueio amplia o risco às vítimas

SpyLoan, um tipo de malware que se disfarça de aplicativo de empréstimo, disparou no Brasil em dois anos e já figura entre os principais golpes móveis da região. Segundo o Panorama de Ameaças 2025 da Kaspersky, as soluções da empresa registraram 88 mil bloqueios desse golpe no país, um salto de 4.300% no período de dois anos, passando de pouco mais de 2 mil detecções para o patamar atual. No ranking latino-americano, o Brasil só fica atrás do México, que contabiliza 363 mil ocorrências, seguido por Colômbia, Equador e Peru, com 28 mil, 23 mil e 11 mil casos, respectivamente.

De acordo com dados da Kaspersky, o Brasil é o 2º país mais atacado por SpyLoan na América Latina. O levantamento cobre o período de agosto de 2024 a julho de 2025 e mostra também que, junto com o avanço do golpe, surgiu um mercado paralelo de serviços e tutoriais que prometem desbloquear celulares sequestrados, um ambiente propício para novas fraudes e novas infecções.

O que é o SpyLoan e como o golpe opera

O SpyLoan começa com anúncios em redes sociais que prometem crédito rápido, sem exigências e com baixa burocracia. Ao instalar o aplicativo, o usuário concede permissões amplas no celular, incluindo acesso a contatos, fotos, vídeos, localização, câmera e microfone. A operação se apresenta como legítima no início, mas logo surgem juros abusivos e cobranças agressivas. Se o pagamento não ocorre, o aplicativo revela sua real função, utilizando o malware para roubar dados sensíveis e até bloquear o aparelho, prática que transforma o celular em uma espécie de garantia para a extorsão.

Esse modelo de fraude se apoia em um público em situação de vulnerabilidade financeira, muitas vezes com dificuldade de conseguir crédito em instituições tradicionais. No Brasil, o cenário é sensível: quase metade das famílias brasileiras está endividada, e as dívidas consomem, em média, 28,5% da renda familiar, segundo dados do Banco Central de agosto de 2025. Esse contexto impulsiona a busca por soluções fáceis e abre espaço para golpes como o SpyLoan.

Brasil em alerta, avanço regional e o “mercado paralelo” de desbloqueio

Os dados da Kaspersky mostram um avanço rápido do SpyLoan no continente e consolidam o Brasil como um dos epicentros da ameaça. Embora muitas dessas aplicações maliciosas circulem fora das lojas oficiais, parte delas consegue chegar aos catálogos legítimos ao se posicionar como aplicativo de empréstimo aparentemente inofensivo. Uma vez instalado, o app obtém permissões críticas e pode extorquir o usuário, bem como intimidar seus contatos ao acessar informações pessoais.

A pressão por recuperar o acesso ao celular levou ao surgimento de um ecossistema paralelo de supostas soluções de desbloqueio, com sites, vídeos e serviços pagos que prometem reverter a invasão. A Kaspersky alerta que essa é uma porta aberta para novos golpes e perdas ainda maiores. Nas palavras de Fabio Assolini, diretor da Equipe Global de Pesquisa e Análise da Kaspersky para a América Latina: “O desespero das vítimas criou um ‘mercado paralelo’ de falsas soluções. As pessoas encontram tutoriais e até serviços pagos onde supostos hackers prometem reaver o acesso ao celular. Contratar um desconhecido na internet para mexer remotamente no seu aparelho, que já está comprometido, é um risco enorme. A vítima pode estar, na verdade, pagando para instalar um malware ainda mais perigoso ou ter todos os seus dados definitivamente roubados”.

Assolini reforça que a ameaça ultrapassa quem solicitou o empréstimo e alcança sua rede de contatos: “Além de os usuários dos aplicativos SpyLoan adquirem uma dívida que é muito difícil de gerenciar, eles inconscientemente concedem a esses apps acesso a informações armazenadas em seu telefone, como listas de contatos, fotos e vídeos. Esses elementos são usados em um esquema de extorsão que se estende além do solicitante de empréstimo e transcende em muitos casos aos seus contatos. É importante que as pessoas sejam cautelosas ao decidir solicitar um empréstimo dessa forma e que sempre cuidem das permissões concedida a cada aplicativo instalado em seus dispositivos”.

Como se proteger e dificultar a ação do SpyLoan

Para reduzir o risco, especialistas recomendam desconfiar de ofertas boas demais, especialmente as que prometem dinheiro imediato, e priorizar instituições financeiras reguladas. Antes de instalar qualquer app de empréstimo, é fundamental verificar a reputação do desenvolvedor, ler avaliações recentes e conferir as permissões solicitadas. Se um aplicativo exige acesso a câmera, microfone, contatos e localização sem justificativa clara, isso é um forte sinal de alerta.

Também é importante manter o sistema operacional atualizado, pois as atualizações elevam a segurança do dispositivo, e utilizar uma solução de cibersegurança capaz de identificar comportamentos maliciosos. A Kaspersky ressalta o uso de ferramentas de proteção em smartphones, como o Kaspersky Premium, para bloquear tentativas de infecção e reduzir o impacto caso o golpe aconteça.

Por fim, em caso de sequestro do aparelho, a recomendação é evitar contratar supostos hackers na internet. A prática pode agravar o problema e expor ainda mais dados pessoais. Em vez disso, o caminho seguro envolve buscar canais oficiais de suporte, registrar boletim de ocorrência quando houver extorsão, revisar as contas vinculadas ao telefone e, se possível, restaurar o dispositivo após a remoção do malware com suporte de profissionais e soluções confiáveis.

O avanço do SpyLoan no Brasil, com 88 mil bloqueios em dois anos e crescimento de 4.300%, sinaliza que a combinação de pressão financeira e aplicativos maliciosos continuará sendo explorada por cibercriminosos. Informação de qualidade, cautela nas permissões e uso de ferramentas de proteção são hoje os principais aliados para evitar que o celular vire moeda de chantagem.

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