IA na sustentabilidade está deixando de ser pauta apenas regulatória ou moral e migrando para o centro da estratégia de negócios. É o que indica a terceira edição do relatório global The Visionary CEO’s Guide to Sustainability, da Bain & Company, que mostra a estabilização da prioridade em sustentabilidade em 2024, após perda de fôlego em 2023. No Brasil, a percepção é majoritariamente favorável: 74% dos executivos acreditam em impacto positivo da tecnologia na agenda socioambiental.
O estudo partiu da análise das respostas de mais de 35 mil CEOs de 150 grandes empresas, identificando uma mudança de abordagem. Depois dos primeiros anos de metas ousadas, os líderes falam menos sobre o tema, mas seguem avançando em iniciativas que conectam competitividade e impacto, com alavancas de descarbonização já lucrativas prontas para acelerar a jornada rumo ao net zero.
No recorte específico sobre IA na sustentabilidade, os dados reforçam o potencial. Segundo o relatório, no Brasil, 40% dos executivos consideram o papel da IA como muito significativo, enquanto 54% enxergam uma contribuição moderada. Já nos Estados Unidos, o entusiasmo é maior, com 69% classificando a importância da tecnologia como muito relevante.
Maturidade da IA na sustentabilidade ainda é limitada
Apesar da percepção positiva sobre IA na sustentabilidade, a maturidade tecnológica é um obstáculo declarado pelas companhias brasileiras. Apenas 10% das empresas se consideram maduras no uso de IA para sustentabilidade, contra 21% nos EUA e 22% na Índia. A maioria, 42%, está em fase de testes piloto, enquanto 36% avançam em iniciativas em escala.
Na avaliação de efetividade, o tom é de cautela. Só 12% dos brasileiros acreditam que suas iniciativas são muito eficazes, enquanto 62% as classificam como moderadamente eficazes. O restante se divide entre percepções neutras e algum grau de ineficiência.
Do lado dos riscos, o alerta é nítido: 32% dos executivos no país avaliam que o uso de IA traz alto risco para a sustentabilidade, acima da média global de 21%. Metade considera os riscos moderados. Esses sinais ajudam a explicar por que, mesmo reconhecendo o potencial da IA na sustentabilidade, as empresas avançam com prudência na busca por escala e governança.
Brasil, EUA e Índia: contraste de ambição e liderança setorial
O relatório também compara desempenho entre países e setores, dividindo as empresas em três perfis: líderes, que moldam a agenda, seguidores e retardatários. No Brasil, 30% das empresas são classificadas como retardatários, 62% como seguidores e apenas 8% como líderes. Na Índia, o contraste é grande, com 46% das companhias despontando como líderes.
Entre os setores, a liderança se concentra em manufatura e em tecnologia, mídia e telecomunicações, com 25% e 28% de empresas líderes, respectivamente. Já consumo, produtos e varejo aparecem com a maior fatia de retardatários, alcançando 54%. O quadro sugere que a IA na sustentabilidade progride mais rápido onde há base industrial e tecnológica robusta, enquanto segmentos de consumo e varejo precisam acelerar a adoção com foco em eficiência, rastreabilidade e redução de emissões.
Para a sócia da Bain, Daniela Carbinato, há uma janela clara para transformar essa distância em vantagem. “Essa diferença reforça a urgência das empresas brasileiras amadurecerem iniciativas e a oportunidade de avançarem de forma responsável, unindo competitividade e impacto socioambiental. As multinacionais estão criando pilotos interessantes, mas o desafio de escala ainda é grande. É aí que o capital público, filantrópico e bancário pode ajudar a equilibrar essa equação”.
Investimento, descarbonização e agenda estratégica rumo ao net zero
Ao mapear os critérios de investimento, o estudo revela preferências distintas. No Brasil, eficiência operacional aparece como principal prioridade, seguida por impacto em sustentabilidade e pelo retorno financeiro. Já nos Estados Unidos e na Índia, a sustentabilidade lidera a lista de fatores determinantes. Isso sugere que a IA na sustentabilidade tende a ganhar espaço no país à medida que a tecnologia comprova retorno e viabiliza ganhos de produtividade e redução de emissões.
O relatório destaca ainda que, após metas iniciais muito ambiciosas, os CEOs estão integrando a sustentabilidade ao valor estratégico do negócio. Embora falem menos sobre o tema, seguem implementando alavancas que já se mostram lucrativas, capazes de impulsionar o que funciona, antecipar disrupções e promover resiliência. Nesse contexto, a IA na sustentabilidade surge como pilar de aceleração, seja na otimização de processos, na análise de dados climáticos, na gestão de riscos, ou na medição e verificação de emissões.
Em síntese, o Brasil não está na linha de frente em maturidade tecnológica, porém o movimento de expansão da IA na sustentabilidade indica que a ferramenta vai ocupar papel cada vez mais estratégico na união entre competitividade e impacto socioambiental. A ambição agora passa por ganhar escala com governança, reduzir riscos percebidos e transformar pilotos em resultados mensuráveis ao longo da cadeia de valor.