ESG e imóveis: pressão crescente por eficiência e transparência
O debate sobre ESG no mercado imobiliário deixou o discurso e entrou no contrato. Durante o painel ‘ESG como Estratégia de Negócios – Transformando compromissos sustentáveis em vantagem competitiva’, no ESG Fórum, a head de Serviços de Sustentabilidade da JLL, Luciana Arouca, afirmou que o setor é responsável por cerca de 40% das emissões globais de gases de efeito estufa, o que coloca os imóveis no centro da transição climática. A declaração reforça a urgência por ativos sustentáveis e por novas práticas de gestão e locação.
Com atuação na gestão de edifícios, condomínios logísticos e escritórios de clientes, a JLL destaca a co-responsabilidade pela eficiência dos ativos administrados. O objetivo, diz a executiva, é apoiar proprietários e ocupantes a reduzir consumo de água, energia e resíduos, fortalecendo desempenho ambiental, econômico e reputacional dos empreendimentos.
Além da tecnologia e da medição, Arouca reforçou que comunicação interna clara é determinante para amadurecer a agenda. Em suas palavras, “A gente precisa insistir na fala. É um trabalho de formiguinha até que as pessoas incorporem essas novas atitudes à sua vida, e aí sim elas vão entender o que está por trás das letrinhas dos compromissos assumidos pelas empresas”. Para ampliar engajamento e impacto, complementou: “A gente precisa traduzir isso de uma forma que gere um alcance maior.”
Cláusulas verdes viram critério decisivo na locação corporativa
A dinâmica do mercado mudou, e rápido. Segundo a JLL, grandes empresas que buscam imóveis já consideram critérios ambientais como decisivos. Em muitos contratos de locação, surgem as chamadas cláusulas verdes, que estabelecem metas de desempenho e compromissos mensuráveis com o clima. Um exemplo em alta é a exigência contratual de migrar para energia 100% renovável em até três anos.
Para proprietários e gestores, isso altera a lógica de negociação. Projetos e portfólios competitivos precisam demonstrar capacidade de atender aos compromissos ESG dos inquilinos, com dados auditáveis, rotas claras de descarbonização e retrofits planejados. As cláusulas verdes também impulsionam melhoras operacionais contínuas, desde eficiência energética e gestão hídrica até gestão de resíduos, mobilizando fornecedores e equipes de manutenção.
Na prática, esses contratos funcionam como um filtro de qualidade. Empreendimentos que já incorporam ativos sustentáveis, automação, medição setorizada e relatórios de desempenho saem na frente, especialmente em nichos como escritórios corporativos e condomínios logísticos, onde a comprovação de resultado pesa no fechamento do negócio.
Ativos sustentáveis ganham valor, vacância cresce para quem não se adapta
Arouca alertou que imóveis que não se ajustam às novas expectativas enfrentam uma combinação desfavorável: aumento de vacância, perda de valor e menor atratividade para ocupantes corporativos. Em um cenário de metas climáticas mais rígidas e relatórios de sustentabilidade mais detalhados, a falta de preparo operacional e de governança acelera a depreciação competitiva.
Do lado positivo, a busca por ativos sustentáveis tende a premiar quem investe em eficiência e transparência. Em especial, edifícios que comprovam desempenho com indicadores consistentes e que aderem a cláusulas verdes mostram menor risco, previsibilidade de custos e alinhamento às políticas de compras responsáveis dos inquilinos. Em mercados mais disputados, esse conjunto de fatores pode se traduzir em melhores taxas de ocupação e em contratos mais longos.
Ao mesmo tempo, cresce a percepção social sobre eventos climáticos extremos e o papel do setor na mitigação. Segundo a JLL, essa pressão externa, vinda de consumidores e investidores, acelera a adoção de padrões que valorizam energia renovável, eficiência e resiliência dos imóveis.
Cultura, dados e governança: do discurso à prática
Apesar dos avanços, a executiva fez um alerta: o greenwashing ainda está presente globalmente. Para evitá-lo, defendeu coerência entre metas anunciadas e ações implementadas, sustentadas por dados e por governança robusta. Ou seja, não basta prometer, é preciso demonstrar com regularidade, método e evidências.
Essa mudança depende de cultura. Arouca ressaltou que conceitos de sustentabilidade precisam ser traduzidos para linguagem acessível, sem excesso de termos técnicos ou estrangeirismos, para que todos entendam sua parcela de responsabilidade e como contribuir no dia a dia dos edifícios. A comunicação contínua, com retorno sobre resultados e metas, ajuda colaboradores e parceiros a internalizarem novas rotinas, do controle de consumo à gestão de resíduos.
O avanço das cláusulas verdes sugere um novo padrão de mercado, em que proprietários e ocupantes compartilham metas e prazos. Para a JLL, a combinação de ativos sustentáveis, energia 100% renovável, medição de desempenho e engajamento interno cria vantagem competitiva concreta, reduz riscos e posiciona o setor para contribuir de forma efetiva na redução das emissões. Com cultura, dados e governança alinhados, a transição deixa de ser promessa e passa a ser prática cotidiana.