Como o design regenerativo e rastreabilidade guiam Equipa Group e Instituto Tran$forma na criação de ciclos de vida para materiais de ponto de venda, com etiquetas digitais, plataforma e blockchain interno
No ESG Fórum, o cofundador da Equipa Group e do Instituto Tran$forma, Thiago Spiess, apresentou uma visão pragmática e orientada a resultados sobre como a indústria de materiais para ponto de venda pode acelerar a economia circular. No centro da proposta estão o design regenerativo e rastreabilidade, uma combinação que busca fazer os produtos nascerem com vocação circular, reduzindo descarte e ampliando os ciclos de uso.
A Equipa Group, que fabrica mobiliário e displays para marcas globais, encara um dilema comum ao setor, materiais que historicamente acabam em aterros. Para reverter esse cenário, Spiess defende uma ruptura com a lógica do uso único. Como ele afirmou no evento, “Às vezes, a gente desenha algo que só tem uma única utilidade. Se a gente desenvolver pensando em novos ciclos de vida, podemos utilizar mais vezes.”
Essa mudança cultural e técnica vem sendo amparada por metodologias internas que contemplam desmontagem, catalogação e reaproveitamento, apoiadas por rastreabilidade digital. Na prática, entram em cena etiquetas, registro em plataforma e até blockchain interno para manter o histórico de cada componente, abrir rotas de reaproveitamento e dar escala à circularidade.
Design regenerativo na prática, do PDV aos novos ciclos de vida
Ao aplicar design regenerativo e rastreabilidade desde a concepção, a equipe desenha peças já preparadas para desmontagem e remontagem, evitando colagens e misturas que inviabilizam a separação de materiais. Isso facilita reuso, reforma e reciclagem, além de reduzir custos ao longo do ciclo de vida.
O exemplo mais emblemático citado por Spiess envolve a Casa da Moeda. Por meio do Instituto Tran$forma, resíduos de papel-moeda antes destinados à incineração ganharam aplicações industriais. Nas palavras do executivo, “Estamos falando de 200 toneladas de cédulas que antes eram incineradas. Hoje damos novos ciclos de vida a esse material.”
Com isso, o que seria resíduo virou mobiliário, pigmentos, objetos de decoração e até filamento para impressão 3D reutilizável em múltiplas vezes. A rastreabilidade comprova origem e processos, enquanto o design regenerativo garante que a matéria circule mais vezes, preservando valor e reduzindo impacto.
Rastreabilidade digital e blockchain interno como motor da circularidade
A adoção de rastreabilidade digital com etiquetas e plataforma própria, combinada a um blockchain interno, permite acompanhar o ciclo de cada item. Esse histórico detalha materiais, lotes, uso, manutenção e devolução, elemento essencial para ativar rotas de reuso e reciclagem sem perda de qualidade.
Segundo Spiess, a urgência é maior do que parece porque os resíduos de displays e mobiliários raramente chegam ao conhecimento do consumidor, mas representam grande volume. Ao dar visibilidade a essa massa de material, a rastreabilidade viabiliza acordos entre marcas, operadores logísticos e recicladores, algo crítico para transformar logística reversa em resultado econômico.
Esse mesmo desenho de dados ajuda a priorizar investimentos, revelar gargalos e medir performance ambiental e financeira. Com design regenerativo e rastreabilidade, cada reposição de campanha no PDV deixa de ser um fim e passa a ser uma etapa de um ciclo planejado, documentado e escalável.
Governança ESG e liderança transversal para escalar a estratégia circular
Embora as evidências técnicas e econômicas existam, Spiess reconhece barreiras corporativas que atrasam a execução. Em suas palavras, “Projetos grandiosos caem porque não entraram no departamento certo. ESG precisa ter atuação horizontal e liderança clara.”
A mensagem é direta, sem patrocínio executivo transversal, iniciativas de circularidade ficam presas em disputas entre áreas, do marketing ao procurement, passando por facilities e operações. A solução, reforça o executivo, está em conduzir a pauta de forma integrada, da concepção do produto às rotas de retorno e revalorização.
Nesse caminho, o Instituto Tran$forma vem mapeando resíduos industriais pouco explorados, como blisters de medicamentos, com potencial de conversão em chapas e novos mobiliários. O foco é tornar visível onde ainda se usa matéria-prima virgem sem necessidade. Como resume Spiess, “O desafio é descobrir onde ainda usamos matéria-prima virgem sem necessidade. A solução está na cadeia inteira.”
A combinação de design regenerativo e rastreabilidade cria uma trilha mensurável, confiável e replicável. Ao integrar governança, dados e engenharia de materiais, o ciclo não só se fecha, ele se amplia, mantendo valor, evitando aterros e viabilizando novas receitas, do PDV à indústria.
Para quem busca acelerar a estratégia circular no Brasil, o recado de Spiess é claro, começar no desenho, documentar com rigor e liderar horizontalmente. Com isso, oportunidades antes invisíveis, como as 200 toneladas de cédulas reaproveitadas, passam a ser vetores concretos de competitividade e impacto positivo.