Efeito desconfiança na Black Friday: 55% indecisos, intenção de compra cai e frete grátis ganha protagonismo, aponta estudo

Com o efeito desconfiança na Black Friday, intenção de compra recua de 54% para 45%, consumidores antecipam pesquisas por segurança financeira e direito de arrependimento em 7 dias no e-commerce

Faltando poucos dias para a Black Friday, marcada para o próximo dia 28 de novembro, sinais de cautela dominam o varejo no Brasil. Um levantamento da Hibou, em parceria com a Score Agency, mostra que 55% dos brasileiros seguem indecisos sobre ir às compras, enquanto 31% já afirmam que não pretendem participar do evento. A intenção de compra, que era de 54% em 2024, caiu para 45% este ano, um retrato claro do efeito desconfiança na Black Friday.

Esse comportamento mais criterioso aparece na forma como o consumidor lida com os preços. Apenas 7% deixam para conferir os valores no dia da Black Friday. Em contrapartida, 42% monitoram ativamente os preços antes do evento para garantir que o desconto é genuíno e fugir da “maquiagem de preços”. O planejamento também se antecipou: 22% dos potenciais compradores iniciaram suas buscas por preços entre agosto e setembro. O efeito desconfiança na Black Friday empurra o consumidor para mais comparação, histórico de preços e foco no valor total da compra, incluindo frete.

A leitura psicológica desse movimento ajuda a entender o momento. A psicóloga da Afya Contagem, Dra Amanda Alves Ramos Piacente, afirma que esse comportamento reflete uma busca maior por segurança, influenciada por experiências passadas: “Em vez de se deixarem levar apenas pelo apelo das promoções, algumas pessoas passam a ponderar mais antes de tomar uma decisão. Existe um movimento crescente de interesse por organização financeira e consumo mais consciente, o que favorece reflexões mais profundas e maior cautela antes de adquirir um produto”.

Comportamento cauteloso e monitoramento de preços ganham espaço

A motivação de compra mudou. Embora o “autopresente” siga como principal justificativa, citado por 88% dos entrevistados, a busca por um produto caro que só valeria a pena na data caiu pela metade, passando de 14% em 2024 para apenas 7% em 2025. Na prática, o consumidor migra de compras aspiracionais para escolhas mais racionais, aderindo ao planejamento e à organização financeira para evitar frustrações.

Os famosos gatilhos de escassez também seguem sob escrutínio, mas ainda funcionam. Sobre as estratégias típicas da data, como cronômetros e avisos de “poucas unidades”, a psicóloga explica: “Em momentos em que o tempo parece limitado, há uma tendência de tomar decisões com menos comparação ou reflexão. Além disso, o medo de “perder uma oportunidade” costuma pesar mais emocionalmente do que a perspectiva de ganhar um benefício, tornando ofertas percebidas como escassas ainda mais atraentes”. O efeito desconfiança na Black Friday, porém, faz com que mais pessoas cruzem dados, registrem ofertas e controlem sua impulsividade.

Preço ainda decide, mas frete grátis sobe de patamar

Preço e desconto continuam sendo decisivos para 83% dos entrevistados, mas o frete grátis já aparece como segundo fator mais relevante, influenciando 42% das escolhas. Por outro lado, benefícios que já foram tendência, como cashback (6%) e kits promocionais (13%), hoje exercem pouca influência. Em um cenário de orçamento apertado, o consumidor olha para o custo total e penaliza promoções com desconto aparente, mas frete elevado, reforçando o efeito desconfiança na Black Friday.

Mesmo com um ambiente nacional mais cauteloso, a data segue como fenômeno global. Segundo a Accenture, o setor deve movimentar US$1,2 trilhão em 2025 no mundo. Boa parte desse volume ocorre no ambiente digital. No Brasil, estimativas da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) indicam que o e-commerce deve atingir R$234,9 bilhões em faturamento neste ano. Para as varejistas, isso exige transparência, comunicação clara e preços competitivos, já que a audiência está mais informada e comparadora do que nunca.

Direitos do consumidor e caminhos para evitar golpes

Com a compra migrando para o online, conhecer os direitos é essencial. O advogado da Afya Sete Lagoas, Deilton Ribeiro Brasil, lembra que, nas compras virtuais, o artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor garante o direito de arrependimento em até sete dias após o recebimento, sem necessidade de justificativa. Ele orienta: “Para assegurar que esse direito seja respeitado, o consumidor deve guardar os comprovantes de compra, verificar os canais oficiais da loja para solicitar o cancelamento, manter registros de e-mails e mensagens, testar o produto apenas dentro do uso razoável e lembrar que o fornecedor deve devolver integralmente os valores pagos, incluindo frete e demais taxas”.

Ribeiro reforça que a proteção contra falsas promoções está baseada nos artigos 30, 35 e 37 do CDC. O artigo 37 veda a publicidade enganosa, o que inclui a manipulação de preços e práticas como “metade do dobro”. Já o artigo 30 estabelece que toda oferta vincula o fornecedor e, se não for cumprida, o consumidor pode, de acordo com o artigo 35, exigir o preço anunciado, aceitar um produto equivalente ou rescindir o contrato com restituição integral do valor pago. Nas palavras do advogado: “Para evitar fraudes, recomenda-se acompanhar o histórico de preços, comparar valores, registrar ofertas e guardar prints. Ao identificar qualquer irregularidade, o consumidor pode invocar esses dispositivos legais e denunciar o fornecedor aos órgãos de defesa do consumidor”.

Às vésperas da data, o efeito desconfiança na Black Friday traduz um consumidor mais atento, que monitora preços, valoriza frete grátis e conhece melhor seus direitos. Para comprar bem, o caminho passa por comparar, checar o histórico e exigir transparência. Para vender mais, varejistas precisam abandonar a maquiagem de preços, comunicar descontos reais e entregar uma experiência confiável do início ao fim.

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