Iniciativas de IA no Brasil aceleram ROI, mas esbarram em infraestrutura e talentos, mostra Kyndryl Readiness Report

Empresas brasileiras avançam em adoção de inteligência artificial, elevam retorno e repensam bases tecnológicas para sustentar a próxima fase

As iniciativas de IA no Brasil atingiram um ponto de virada, combinando retornos crescentes com a necessidade urgente de modernizar a base tecnológica, requalificar equipes e blindar dados. O diagnóstico é da segunda edição do Kyndryl Readiness Report, estudo global baseado em respostas de 3.700 líderes em 21 países, incluindo o Brasil. O levantamento aponta que as empresas estão ampliando investimentos, mas também sentem maior pressão por ROI, por ciberresiliência e por adequação a um cenário regulatório fragmentado.

No Brasil, o salto de confiança convive com gargalos históricos. Em 2024, os investimentos médios em inteligência artificial cresceram 40%, ao mesmo tempo em que executivos cobram valor de negócios mais rápido e de forma sustentada. A fotografia do ano passado já revelava um hiato crítico entre percepção e preparo: 95% dos líderes empresariais acreditavam que sua infraestrutura de TI era de primeira linha, apenas 49% a consideravam pronta para riscos futuros. O novo relatório indica que a tensão persiste, com especial impacto no momento de escalar pilotos e mover provas de conceito para produção.

“A promessa do valor transformador da IA é evidente”, afirma Spencer Gracias, Diretor-Geral da Kyndryl Brasil. “No Brasil, 92% dos líderes acreditam que a IA irá transformar completamente as funções organizacionais nos próximos 12 meses, e os investimentos em IA cresceram, em média, 40% no último ano. Apesar desse avanço, 43% apontam a falta de profissionais qualificados para gerir a IA, e 50% relatam que a inovação ainda é frequentemente atrasada por desafios de infraestrutura. Assim, embora vejamos grandes progressos em IA, lacunas em tecnologia e talentos continuam sendo obstáculos para a próxima fase das empresas brasileiras.”

ROI cresce, mas projetos paralisam após a prova de conceito

O relatório mostra que a pressão por resultados aumentou com força. 61% dos líderes afirmam sentir mais pressão este ano para entregar ROI dos projetos de IA, um reflexo direto da ampliação dos aportes e da necessidade de demonstrar valor tangível no curto prazo. Em paralelo, 50% dizem que os esforços de inovação geralmente param após a fase de prova de conceito, um sinal de que a transição do laboratório para a operação ainda encontra barreiras estruturais.

Um dos principais bloqueios é a pilha tecnológica. Metade dos entrevistados afirma que a própria infraestrutura atrasa os esforços de inovação, impedindo que pilotos escalem para ambientes produtivos com segurança, governança e custos sob controle. Essa realidade ecoa a lacuna apontada no ano anterior, quando as empresas se declaravam avançadas em TI, porém sem robustez para riscos e mudanças futuras.

Mesmo assim, as iniciativas de IA seguem avançando. O aumento médio de 40% nos investimentos ao longo de um ano sinaliza confiança na tecnologia como motor de produtividade, automação e diferenciação competitiva. Para destravar a próxima etapa, especialistas destacam a necessidade de modernização de dados, integração entre sistemas legados e nuvem, além de um pipeline claro de casos de uso com métricas de valor, segurança e conformidade desde o desenho.

Pressão regulatória e geopolítica redesenham a estratégia de nuvem

Outro vetor decisivo para o amadurecimento das iniciativas de IA é a evolução do ambiente regulatório global, com novas exigências sobre soberania de dados, privacidade e controles de risco. No Brasil, 77% dos líderes relatam preocupação com riscos geopolíticos associados ao armazenamento e gestão de dados em ambientes de nuvem global, o que tem levado empresas a reverem modelos operacionais e fornecedores.

Segundo o estudo, 62% das empresas brasileiras fizeram mudanças em suas estratégias de nuvem diante dessas pressões. As ações incluem a revisão de políticas de governança de dados por 48% das organizações, a transferência de dados para infraestrutura interna por 34% e a migração para provedores de tecnologia locais por 29%. O movimento busca equilibrar os benefícios de escalabilidade e inovação da nuvem com maior controle, conformidade e resiliência.

Nesse contexto, a cibersegurança tornou-se prioridade transversal. Para proteger o valor gerado pelas iniciativas de IA, 49% das empresas estão investindo na implementação de medidas robustas, o que inclui reforço de identidades, segmentação de redes, monitoramento avançado e práticas de DevSecOps. A mensagem é clara, IA sem segurança e governança de dados não escala com confiança.

Talento, cultura e ciberresiliência definem os “Pacesetters”

A transformação impulsionada pelas iniciativas de IA também redireciona a agenda de pessoas. No Brasil, 92% dizem que a IA irá “transformar completamente” os empregos em suas organizações em 12 meses, porém apenas 39% consideram que os colaboradores possuem as habilidades técnicas necessárias e 43% seguem apontando a falta de profissionais qualificados para gerir IA. A combinação de requalificação, contratação e desenvolvimento de cultura orientada a dados tornou-se parte essencial do plano de prontidão.

Globalmente, o estudo identifica barreiras culturais que inibem a inovação, com quase metade dos CEOs relatando organizações que travam decisões e experimentação. Em contraste, as empresas classificadas como “Pacesetters” mostram ganhos significativos de performance operacional e de risco. Elas são 32 pontos percentuais menos propensas a enxergar a pilha tecnológica como barreira, 30 pontos percentuais mais propensas a dizer que sua nuvem pode se adaptar a novas regulamentações e 20 pontos percentuais menos propensas a relatar interrupção relacionada à cibersegurança no último ano.

O recado para os próximos trimestres é pragmático. Para converter pilotos em escala, as empresas precisarão alinhar arquiteturas de dados, governança e segurança com um plano claro de capacitação e com prioridades de negócio. Ao mesmo tempo, será fundamental equilibrar a adoção de nuvem com as exigências de soberania de dados e conformidade. Nesse equilíbrio entre valor, risco e cultura, as iniciativas de IA mostram maturidade crescente e abrem espaço para ganhos sustentáveis em produtividade e crescimento.

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