A relação entre inovação e sustentabilidade ganhou protagonismo no ESG Fórum, quando Júlia Spinasse, líder de sustentabilidade corporativa da Suzano, reforçou que o setor de papel e celulose ocupa posição singular na transição para uma economia de baixo carbono. Ao apontar a substituição crescente de insumos fósseis por produtos renováveis, como o papel, a executiva foi categórica ao cravar que “A inovação que não está a serviço da sustentabilidade simplesmente não é suficiente para entregar o valor que a gente precisa.”
Em uma fala centrada em resultados e prática, Spinasse destacou que a companhia vem combinando ciência florestal e tecnologia para fortalecer a resiliência de suas operações diante das mudanças climáticas, ancorada em modelos climáticos, genética de eucalipto e inteligência artificial. Essa abordagem, segundo ela, tornou-se parte do dia a dia, com reflexos diretos no planejamento florestal e operacional.
Por que “inovação sem sustentabilidade” não entrega valor
Ao relacionar a agenda de ESG com o imperativo de competitividade, Spinasse defendeu que inovação sem sustentabilidade perde relevância em um mundo pressionado por crises ambientais e por novas exigências de mercado. No setor de papel e celulose, observam-se ganhos concretos com a ampliação de soluções de base renovável, movimento que ajuda empresas e cadeias a reduzir pegadas de carbono e a capturar novas oportunidades em mercados que priorizam a descarbonização.
Ela lembrou que a Suzano carrega um histórico robusto de inovação, que começou há mais de cinco décadas com a criação da celulose de eucalipto, hoje uma tecnologia predominante na indústria global. Segundo a executiva, essa virada tecnológica se consolidou no mercado, já que a celulose de eucalipto, desenvolvida pela empresa há mais de 50 anos, representa mais de 50% do mercado global. O exemplo reforça o argumento de que pesquisa de longo prazo, alinhada a metas ambientais, gera competitividade e escala, algo que a Suzano procura replicar agora no enfrentamento dos riscos climáticos.
Ao conectar inovação e sustentabilidade, a líder sublinhou que o valor gerado depende de métricas claras de impacto, o que envolve reduzir emissões, aprimorar a eficiência no uso de recursos naturais e garantir resiliência climática em toda a operação. Para a companhia, esse é o caminho para transformar o discurso em vantagem competitiva concreta.
Três pilares de adaptação climática: modelos, genética e tecnologia
Para lidar com os efeitos já presentes das mudanças climáticas, a Suzano organizou sua adaptação em três pilares complementares. O primeiro é a integração de modelos climáticos ao planejamento florestal e operacional, o que permite antecipar cenários e ajustar estratégias com base em dados. Essa leitura dinâmica ajuda a orientar escolhas que vão desde o preparo do solo até a logística de colheita e transporte.
O segundo pilar é a genética, apoiada no que a empresa classifica como o maior banco de clones de eucalipto do mundo. Esses materiais são pesquisados e testados para responder melhor ao calor e a variações hídricas, fator decisivo para manter produtividade e sanidade florestal em um contexto de eventos extremos mais frequentes. Quanto maior a diversidade e a assertividade na escolha dos clones, maior a chance de preservar rendimento e qualidade da madeira.
O terceiro pilar é a tecnologia, com ênfase em inteligência artificial e analytics. Essas ferramentas aceleram a tomada de decisão, permitem o cruzamento de dados históricos com projeções climáticas e otimizam a alocação precisa dos clones mais adequados a cada microrregião. Na prática, a combinação entre IA, dados de campo e ciência florestal encurta o ciclo de aprendizado, aumentando a eficiência e diminuindo riscos.
Impactos reais e gestão do risco, do Maranhão ao Mato Grosso do Sul
Spinasse citou episódios recentes que exigiram respostas rápidas e baseadas em dados. Entre eles, chuvas intensas no Maranhão e ondas de calor extremo no Mato Grosso do Sul, situações que impuseram mudanças no planejamento operacional e exigiram reforço nos protocolos de segurança dos trabalhadores. A leitura preventiva, apoiada em modelos climáticos, ajuda a definir janelas mais seguras de operação, a modular o ritmo das atividades e a avaliar a necessidade de recursos adicionais em campo.
Segundo a executiva, a rotina de P&D voltada ao clima é parte integrante da gestão da Suzano. Nas palavras dela, “A gente tem um time de pesquisa e desenvolvimento que trabalha diariamente modelos climáticos, entende o impacto no negócio e influencia a adaptação no dia a dia”. Essa cultura orientada por dados está conectada a metas de continuidade operacional e à ambição de reduzir vulnerabilidades em toda a cadeia.
Ao amarrar a estratégia, Spinasse voltou ao ponto central, reforçando que inovação sem sustentabilidade não gera o impacto necessário para enfrentar os desafios desta década. Em suas palavras, em um mundo marcado por crises ambientais, inovação que não contribui para a sustentabilidade “simplesmente não entrega o valor necessário”. Para a Suzano, o alinhamento entre inovação, baixo carbono e resiliência climática deixa de ser um diferencial, tornando-se pré-requisito para competitividade, licença social e perenidade do negócio.
Com modelos climáticos integrados, genética avançada de eucalipto e tecnologias de IA e analytics, a companhia procura consolidar um ciclo virtuoso que começa na pesquisa, segue para a aplicação em escala e retorna em ganhos de produtividade, segurança e clima. É essa arquitetura que sustenta a tese de que, na prática, inovação sem sustentabilidade não entrega valor, e que a inovação a serviço do clima e da bioeconomia pode, de fato, mover o setor de papel e celulose para a próxima fronteira de crescimento.