Ransomware no Brasil em 2025: explosão de ataques expõe fragilidade digital de prefeituras e serviços essenciais

Ransomware no Brasil avança com 113 vítimas no ano e mais de 314 bilhões de atividades maliciosas no semestre, enquanto especialistas pedem governança, prevenção e o básico bem feito para proteger o setor público

O ransomware no Brasil entrou em 2025 com ritmo acelerado, colocando o país entre os mais visados do mundo. Dados do portal ransomware.live mostram que o Brasil é o mais atacado da América Latina, com 113 vítimas registradas no ano, atrás apenas de França, Espanha, Itália, Alemanha e Reino Unido. Em paralelo, o FortiGuard Labs, da Fortinet, identificou mais de 314 bilhões de atividades maliciosas no semestre, incluindo 28,1 mil incidentes de ransomware. O recado é claro, o crime mira onde há dados valiosos e defesas desiguais, e a administração pública virou alvo frequente.

À medida que o ransomware no Brasil cresce, os impactos deixam os servidores e chegam ao atendimento direto ao cidadão. Incidentes recentes em cidades brasileiras mostram como serviços de saúde, assistência social e rotinas administrativas podem ser interrompidos, afetando consultas, benefícios e emissão de documentos. Para especialistas, o país ainda reage de forma fragmentada, enquanto a ameaça já é uma questão de Estado e exige coordenação nacional.

Ataques que afetam serviços essenciais

Nos últimos meses, prefeituras e secretarias municipais sofreram paralisações e restrições operacionais após ataques cibernéticos. Em Cuiabá, a Secretaria Municipal de Saúde precisou isolar ambientes e realizar trabalho emergencial de TI para garantir continuidade mínima do atendimento. Em Cabedelo, Paraíba, além do comprometimento de sistemas da Secretaria de Assistência Social, houve invasão física à sede da pasta, o que levou ao reforço de segurança patrimonial e digital. Em São João, Paraná, a prefeitura confirmou ataque aos sistemas e operou com limitações até o restabelecimento dos serviços.

Os casos evidenciam um padrão, equipes de TI enxutas, sistemas legados pouco documentados, forte dependência digital para rotinas críticas e comunicação restrita durante a crise. O pesquisador em cibersegurança Julio Signorini resume o problema como resultado de atraso histórico. “Por anos, a cibersegurança foi o problema do pessoal da TI, trancado no data center. Hoje, o ‘banco’ é o próprio Estado: serviços ao cidadão, economia, saúde, educação, tudo é digital”, afirma. Segundo ele, um ataque não derruba apenas um servidor, pode paralisar um hospital, atrasar pagamentos de benefícios e expor dados de milhões.

Para Signorini, a recente regulação federal, com a publicação da PPSI 2.20, começa a corrigir o ponto mais frágil, a governança. A portaria define papéis para alta administração, TI, segurança da informação e DPO, e cria estruturas como o CISC gov.br e o CEPS gov.br para coordenação, resposta a incidentes e capacitação. “É o movimento que tira a segurança do limbo técnico e transforma o tema em obrigação institucional”, diz. Ainda assim, ele alerta para o risco de respostas episódicas, “Tratamos cibersegurança com mentalidade de pronto-socorro, não de medicina preventiva”. E conclui, “Ficamos melhores em apagar incêndios, mas não em construir uma cidade à prova de fogo”.

Por que prefeituras viraram alvo lucrativo

Do ponto de vista econômico, o ransomware no Brasil encontra nas prefeituras um ambiente de alto valor de dados e maturidade em evolução. Marcelo Luz, gerente sênior de Engenharia da Fortinet Brasil, aponta a atratividade de bases municipais completas. “Imagine uma prefeitura de 150 mil habitantes. Ela certamente tem o cadastro dos munícipes, cadastros do SUS, um banco de dados muito valoroso. Se o cibercriminoso comprometer o site dessa prefeitura, ele consegue 150 mil CPFs, 150 mil nomes e RGs, todo o cadastro dos munícipes em algum programa social”, afirma.

Segundo Luz, o Brasil concentra 84% de todas as tentativas de ataques cibernéticos detectadas na América Latina no primeiro semestre de 2025, com mais de 314 bilhões de atividades maliciosas e 28,1 mil incidentes de ransomware no período. As investigações da Fortinet mostram a profissionalização do crime por meio do Ransomware-as-a-Service, em que núcleos especializados desenvolvem ferramentas e afiliados disparam campanhas em massa contra milhares de alvos.

O executivo reforça que muitos ataques combinam infraestrutura técnica global com conhecimento local. “O cybercrime internacional pode ter a técnica, mas não conhece o contexto. Só quem vive o território sabe o que é um sistema de câmeras inteligentes municipal ou um cadastro social e como isso pode ser explorado”, explica. Com a expansão de cidades digitais, redes de câmeras, sensores e sistemas integrados, a superfície de ataque cresce mais rápido do que as proteções.

Governança, prevenção e o básico bem feito

Para reduzir o impacto do ransomware no Brasil, especialistas defendem focar no básico bem feito antes de buscar soluções de ponta. Isso inclui gestão de identidades e acessos, correção contínua de vulnerabilidades conhecidas, backups e planos de recuperação testados regularmente e capacitação constante de equipes e usuários. Em muitos órgãos, o elo fraco ainda está em senhas fracas, ausência de autenticação multifator e baixa conscientização sobre phishing e engenharia social.

Signorini destaca que municípios caminham sob um “tripé da vulnerabilidade”, sistemas legados, equipes pequenas e liderança sem cultura de risco. Ele defende que a União atue como provedora de Security-as-a-Service para estados e municípios, aproveitando a escala do governo federal para oferecer centro de operações de segurança compartilhado, inteligência de ameaças, modelos de políticas e formação. A responsabilidade, na visão dele, deve ser escalonada e contar com padrões mínimos, tirando o peso exclusivo do gestor de TI local.

Na prática, a mudança de chave é tratar a cibersegurança como política pública de continuidade de serviços, não como compra pontual de tecnologia. Em um cenário no qual um ataque pode atrasar cirurgias, interromper benefícios e expor dados de uma cidade inteira, fortalecer a governança, integrar respostas e investir na prevenção deixam de ser escolhas, tornam-se prioridade para blindar o setor público contra o avanço do ransomware no Brasil.

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