Segurança cibernética em xeque: 90% dos conselheiros não confiam no retorno dos investimentos, aponta Gartner

Pesquisa global com 330 NEDs revela ceticismo sobre segurança cibernética, enquanto IA e tecnologia ganham força para proteger o valor para os acionistas

Segurança cibernética segue como prioridade nos Conselhos de Administração, mas a crença no seu retorno ainda é baixa. De acordo com nova pesquisa do Gartner, noventa por cento dos membros dos boards (Non-Executive Directors – NEDs) não têm confiança no valor da segurança cibernética. Apenas 10% expressam forte confiança no valor dos investimentos ou iniciativas, afirmando que possuem o equilíbrio certo entre proteção e custo.

Apesar do ceticismo, o estudo indica que esse desconforto é um catalisador para mudança. Os CIOs e CISOs mais bem preparados, descritos como sensatos pela consultoria, têm conseguido transformar a discussão ao traduzir a segurança cibernética em métricas de negócio compreensíveis para os conselhos, como impacto em receita, custos e valor para o acionista.

“Os Conselhos de Administração muitas vezes têm dificuldade em conectar os investimentos em segurança cibernética a resultados reais de negócios”, diz Kristin Moyer, Vice-Presidente Analista Emérito do Gartner. “Dashboards e atualizações de conformidade podem confundir em vez de tranquilizar, deixando os NEDs incertos sobre se sua organização está realmente mais segura. Os CIOs e CISOs sensatos obtêm o consenso do conselho sobre os níveis adequados de proteção e custo, traduzindo a complexidade da segurança cibernética em valor para os negócios, como receita, custo e impacto para os acionistas.”

Segundo o Gartner, os Conselhos buscam explicações claras sobre como ameaças específicas se convertem em riscos reais à operação. Nessa linha, CIOs e CISOs que se destacam oferecem transparência sobre níveis reais de exposição e prontidão, indo além de tendências genéricas e apresentando cenários e implicações diretas para o negócio.

Por que o valor ainda é nebuloso para os boards

O estudo mostra que a dificuldade principal não está em reconhecer a importância da segurança cibernética, mas em comprovar seu valor em termos de resultados. Muitos conselhos recebem relatórios focados em conformidade ou em indicadores técnicos que pouco dialogam com metas corporativas. Isso explica o hiato entre investimento contínuo e percepção de retorno.

Nesse contexto, traduzir riscos em linguagem de negócio se torna um diferencial. Ao mensurar exposição financeira, tempo de indisponibilidade, impacto regulatório e possível dano reputacional, a liderança de tecnologia transforma discussões técnicas em decisões estratégicas. É essa abordagem que ajuda a restabelecer a confiança dos NEDs no equilíbrio entre proteção e custo, aumentando o apoio a programas de segurança cibernética.

Ameaças externas que mais afetam o valor para os acionistas

Os riscos cibernéticos são entendidos como parte de um cenário mais amplo de ameaças à competitividade. De acordo com o levantamento, setenta por cento dos NEDs identificaram a instabilidade geopolítica e os conflitos internacionais como as ameaças externas mais significativas ao valor para os acionistas nos próximos 12 meses. Além disso, um em cada três NEDs apontou riscos cibernéticos, rupturas tecnológicas e desafios de inovação como os principais fatores externos a impactar o valor no próximo ano.

Essa leitura amplia o papel da segurança cibernética como alicerce de resiliência, lado a lado com estratégias de continuidade, gestão de fornecedores críticos e proteção regulatória. Em outras palavras, blindar dados, processos e operações é parte de um conjunto de respostas corporativas para atravessar um ambiente de maior volatilidade.

Tecnologia e IA ganham prioridade como resposta à volatilidade

Embora a tecnologia seja vista como fonte de risco emergente, incluindo a disrupção da Inteligência Artificial (IA), ela também aparece como ferramenta central para enfrentar a instabilidade. Sessenta e três por cento dos NEDs afirmaram que o investimento em tecnologia e inovação é a melhor forma de combater a volatilidade global atual.

Nesse movimento, a aposta em IA se destaca. Segundo o Gartner, “A maioria dos NEDs não só acredita que o investimento em tecnologia é uma estratégia fundamental para lidar com a volatilidade, como também que a maior parte desses investimentos deve ser feita em Inteligência Artificial”, afirma Tina Nunno, Vice-Presidente de Gestão do Gartner. “A IA foi classificada como o investimento número um (57% dos entrevistados) com potencial de impactar positivamente o valor para os acionistas nos próximos dois anos, à frente do investimento em novos produtos e serviços (56%) e fusões e aquisições (45%). Os NEDs perceberam as vastas somas de dinheiro que estão sendo investidas em startups de IA e Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) e acreditam que, com o tempo, pelo menos algumas dessas apostas em Inteligência Artificial darão certo.”

O apetite por inovação cresce junto com a necessidade de governança adequada. A maioria dos membros dos boards (71%) gostaria de ver suas empresas assumirem mais riscos tecnológicos e incentiva CEOs e equipes executivas a mostrarem que têm uma estratégia de IA, agindo com rapidez suficiente para capturar oportunidades.

“Praticamente todos os NEDs já passaram por uma violação de segurança cibernética, seja como líderes executivos ou durante seu mandato como membros do board”, diz Nunno. “Novas regulamentações de segurança colocaram esse tema em destaque nas agendas dos board. Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial (IA) está causando uma disrupção significativa nos negócios — e ganhou considerável atenção dos Conselhos de Administração.”

A 2026 Gartner Board of Directors Survey foi realizada de 14 de abril a 22 de maio de 2025 com 330 entrevistados da América do Norte, América Latina, Europa e Ásia/Pacífico, que são membros dos boards em empresas privadas ou públicas. Fonte: Gartner (Novembro 2025).

No fim, o recado para líderes de tecnologia é direto: fortalecer a segurança cibernética passa por demonstrar impacto em valor para os acionistas. Ao tornar visíveis a exposição real, a prontidão para ameaças e o custo de não agir, CIOs e CISOs aumentam a confiança do conselho e posicionam suas organizações para navegar a próxima onda de volatilidade com mais clareza e retorno.

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