Tráfico de pessoas: alertas na Câmara expõem brasileiros cooptados por centros de golpes digitais no Sudeste Asiático

Especialistas alertam para tráfico de pessoas voltado a centros de golpes digitais na Ásia - Notícias

Tráfico de pessoas em foco: Itamaraty registra 153 casos em 2023 e 152 em 2024, vítimas são vigiadas por apps e forçadas a aplicar golpes com criptomoedas, segundo especialistas

Especialistas ouvidos em audiência pública na Câmara dos Deputados alertaram para o avanço do tráfico de pessoas voltado a centros de golpes digitais no Sudeste Asiático, uma rota criminosa que, segundo eles, vem substituindo modelos tradicionais de exploração, como a sexual. O debate ocorreu no grupo de trabalho que estuda medidas de combate ao tráfico humano, vinculado à Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, e reuniu representantes do Itamaraty, do Ministério da Justiça e Segurança Pública e da Polícia Federal, com apoio da Interpol.

De acordo com o embaixador Aloysio Mares, as quadrilhas atraem principalmente jovens com conhecimentos em informática por meio de promessas de ganhos financeiros. Ao chegarem aos chamados scam centers, os brasileiros têm documentos retidos, deixam de receber salários e podem ser agredidos caso não atinjam metas diárias de fraudes. Em depoimento, Mares detalhou o mecanismo de exploração e o efeito em cadeia dessas redes criminosas: “Uma vez no exterior, as vítimas são submetidas à exploração laboral e obrigadas a aplicar golpes pela internet, como fraudes com criptomoedas, jogos de azar e falsos relacionamentos amorosos usados para extorquir outras pessoas. Além disso, são forçadas a recrutar novas vítimas da mesma nacionalidade”.

Os dados oficiais reforçam a gravidade do cenário. O Itamaraty registrou 153 casos de tráfico de pessoas no exterior em 2023 e 152 no ano de 2024, números que, segundo os participantes da audiência, representam apenas uma parcela do problema por causa da alta subnotificação. As vítimas resgatadas recebem abrigo, assistência psicológica e apoio para retorno voluntário ao Brasil, com auxílio consular prestado em coordenação com o Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Como operam os centros de golpes digitais que exploram o tráfico de pessoas

O tráfico de pessoas para os centros de golpes digitais funciona por etapas, a partir de vagas de trabalho falsas e ofertas atrativas divulgadas em redes sociais e aplicativos de mensagens. Ao aceitarem as propostas, as vítimas são transportadas para países do Sudeste Asiático, onde perdem a liberdade de ir e vir e passam a viver sob vigilância constante. A retenção de passaportes, a cobrança de supostas “dívidas” da viagem e o controle sobre alimentação e repouso criam um ambiente de coerção que sustenta as operações de fraude em larga escala.

Além de aplicarem golpes online, incluindo criptomoedas, jogos de azar e relacionamentos falsos com fins de extorsão, os exploradores exigem que as vítimas recrutem conterrâneos, multiplicando o alcance do crime. Esse ciclo alimenta redes transnacionais que se beneficiam da circulação financeira ágil, do anonimato e da dificuldade de cooperação jurídica internacional.

Tecnologia intensifica o controle, dificulta resgates e investigações

A tecnologia é usada pelas quadrilhas como ferramenta de controle e silenciamento. A coordenadora-geral de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Ministério da Justiça, Marina Bernardes de Almeida, relatou que vítimas brasileiras são monitoradas por aplicativos de localização, o que impede pedidos de socorro e atrapalha a apuração dos crimes. Segundo ela, a própria natureza digital desses golpes impõe novos obstáculos às autoridades. Como afirmou na audiência: “As vítimas relataram que eram controladas por aplicativos de localização no celular. A internet é um fator crucial em todo esse processo e dificulta a repressão, porque hoje não vemos mais o autor do crime ao lado da vítima”.

Nesse contexto, o governo federal aplica o Protocolo Operativo Padrão de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (POP TIP), que padroniza o atendimento, integra o Itamaraty, a Polícia Federal e outros órgãos, e orienta o resgate e a proteção das vítimas. De acordo com Marina, a aplicação correta do protocolo desde o primeiro atendimento reduz o risco de novos danos durante o processo de assistência e investigação, além de preservar elementos de prova que podem sustentar cooperação internacional.

Rastrear o dinheiro e fortalecer a proteção às vítimas

Para desarticular as redes, o foco no fluxo financeiro é considerado decisivo. O delegado da Polícia Federal e representante da Interpol, Bruno Eduardo Samezina, destacou a necessidade de atingir a estrutura econômica do crime, incluindo meios de pagamento e mecanismos de lavagem de dinheiro. Nas palavras dele, sem essa frente, as quadrilhas rapidamente se reorganizam: “Sem lidar com a estrutura econômica do crime, como os meios de pagamento e os mecanismos de lavagem de dinheiro, não haverá repressão eficiente. Se combatemos apenas os executores, o sistema acaba se recompondo”.

A audiência também trouxe luz à situação de crianças e adolescentes. Conforme informou o embaixador Aloysio Mares, os registros consulares não apontam casos de vítimas menores de idade no exterior, o que acendeu o alerta para uma possível subnotificação. A deputada Carla Dickson, que coordena o grupo de trabalho, comparou essa ausência de registros com a realidade doméstica, lembrando que o país convive com grande volume de desaparecimentos. Ela afirmou: “Preocupa-me muito termos 23 mil crianças desaparecidas e não chegarem dados de crianças traficadas ao próprio Itamaraty”.

As falas convergem para a urgência de reforçar a prevenção, a cooperação internacional e a assistência integral às vítimas do tráfico de pessoas. Informar potenciais alvos, checar ofertas de emprego no exterior, acionar redes consulares e fortalecer as investigações financeiras são passos essenciais para quebrar a cadeia dos centros de golpes digitais no Sudeste Asiático, criando barreiras efetivas ao aliciamento e à exploração.

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