Especialistas explicam como a inteligência artificial no SUS acelera diagnósticos e triagens, por que o viés e a proteção de dados exigem regras claras, e quais passos estruturais podem destravar a escala nacional
Diagnóstico, vigilância e gestão, onde a IA já atua no SUS
A inteligência artificial no SUS saiu do laboratório e já está no dia a dia de hospitais e postos de saúde. Segundo apresentação do Ministério da Saúde em audiência na Câmara dos Deputados, a tecnologia vem sendo aplicada em três frentes diretamente ligadas à saúde pública, diagnóstico clínico, vigilância sanitária e gestão de serviços, acelerando análises de exames, priorizando casos urgentes e otimizando o funcionamento das unidades.
Para Leonardo Tristão, CEO da Performa_IT, o momento é de virada. “A inteligência artificial já é uma realidade nos diagnósticos e isso representa um divisor de águas. O que antes dependia de horas de análise humana pode agora ser acelerado por algoritmos que comparam milhares de exames em segundos e apontam padrões que muitas vezes escapam ao olhar humano.”
Essa aceleração, no entanto, mantém o humano no centro das decisões clínicas. “Claro, a decisão final sempre será do médico – e ainda bem, porque empatia e julgamento clínico não se automatizam. Mas enxergamos a IA como um copiloto que amplia a capacidade dos profissionais de saúde, aumenta a precisão dos diagnósticos e abre espaço para um atendimento mais rápido e humano.”
Na prática, a inteligência artificial no SUS já contribui com triagem automatizada, diagnósticos mais assertivos e gestão hospitalar baseada em predições de leitos, escalas e insumos, além de monitoramento remoto de pacientes crônicos. “Ela ataca três gargalos ao mesmo tempo: acesso, qualidade e eficiência”, afirma Tristão.
Com governança e processos, a tecnologia migra de promessa para infraestrutura. “Com regras simples e firmes, a IA deixa de ser promessa e vira infraestrutura de saúde. Em saúde, inovar é ganhar tempo, e tempo salva vidas”, destaca Leonardo. Outro avanço já em curso é a construção de copilotos médicos. “Outro avanço concreto está na construção de copilotos médicos: sistemas que cruzam resultados com histórico clínico, medicamentos em uso e até fatores demográficos, oferecendo um quadro mais completo para a tomada de decisão.”
Viés algorítmico e proteção de dados, os alertas para a inteligência artificial no SUS
Com a expansão da IA na saúde pública, cresce a atenção ao viés algorítmico e à proteção de dados. Em um país diverso como o Brasil, modelos treinados com bases pouco representativas podem errar ao atender diferentes perfis demográficos. “O viés algorítmico é um dos maiores desafios em um país como o Brasil, onde o SUS atende uma população extremamente diversa em termos de idade, etnia, condições de saúde e até hábitos culturais.”, alerta Leonardo Tristão.
Na ponta do cuidado, o papel do médico é insubstituível. “A inserção e avaliação dos dados nem sempre colaboram com a realidade daquela região, daquela população”, explica Dr. Marcelo Carvalho. “Um algoritmo treinado em um contexto pode falhar em outro. Por isso, ele nunca pode substituir o olhar clínico.” O especialista reforça a centralidade do julgamento humano. “O médico sempre será o protagonista da decisão. A inteligência artificial é uma ferramenta, não um fim”.
Garantir a segurança da informação é outro pilar para a confiança na inteligência artificial no SUS. “Esses dados revelam informações sensíveis sobre a saúde das pessoas. Por isso, precisam ser protegidos com rigor. Se não forem tratados adequadamente, os riscos são enormes. O mais imediato é o vazamento de informações pessoais, que pode expor diagnósticos, tratamentos ou condições de saúde que deveriam permanecer em sigilo. Mas existe também o risco de uso indevido, como a venda de dados para fins comerciais, ou até discriminação, caso seguradoras ou empregadores tenham acesso a informações médicas de forma indevida”, afirma Leonardo Tristão.
Recursos como anonimização, criptografia, acesso segmentado e registro de auditoria ajudam a cumprir a LGPD e a fortalecer a governança de dados. Ainda assim, o fator humano segue crítico. “Mesmo o sistema mais seguro pode ser comprometido se alguém anotar a senha em um papel colado no computador. A tecnologia oferece as ferramentas, mas a cultura de segurança é o que garante a privacidade.”
Humanização, cultura e regulação, o caminho para escalar a inteligência artificial no SUS
O impacto da inteligência artificial no SUS também é humano. Para Dr. Marcelo, tudo depende do uso. “A inteligência artificial pode tanto humanizar quanto desumanizar. O que muda, na verdade, é como nós vamos utilizá-la de modo que humanize o atendimento.” Ao assumir burocracias, a IA libera tempo do profissional para o paciente. “Se o burocrático fica para a inteligência artificial, o médico tem mais tempo de atender o paciente. Isso conseguiria fazer com que se humanize o atendimento em saúde.”
O alerta, porém, é claro. “Se você utilizar a inteligência artificial para atender o paciente diretamente, então você desumaniza o atendimento. A pergunta não é se a IA humaniza ou não, é como vamos usá-la para que as consultas fiquem mais humanizadas.” Há uma barreira cultural em jogo. “Há uma tendência muito forte, principalmente na área médica, do conservadorismo”. “Muitos profissionais resistem por acreditar que a tecnologia pode colocar em risco a população ou ameaçar seus empregos. Mas, apesar de lenta, a adoção é real. Assim como tomógrafos e ressonâncias se tornaram comuns, a IA também vai ocupar seu espaço, de forma tímida, lenta e gradual, na minha visão.”
Para ganhar escala, o Brasil precisa ajustar o alicerce para a inteligência artificial no SUS. “O primeiro é infraestrutura digital: muitos hospitais e unidades de saúde ainda operam com sistemas pouco integrados, o que dificulta a coleta e o uso de dados em escala. O segundo é a padronização de dados de saúde, porque cada estado ou município registra de um jeito, e sem essa base comum é quase impossível treinar modelos confiáveis. Outro ponto é a formação e capacitação de profissionais, tanto na área médica quanto na área técnica, para que saibam usar e avaliar as ferramentas de IA de forma crítica.”
Uma regulação clara é vista como essencial. “Sem isso, a tecnologia corre o risco de avançar mais rápido que a confiança da população. Um exemplo simples: se cada município adotar um sistema de IA para triagem sem padrões comuns, corremos o risco de criar ilhas de excelência cercadas por áreas que ficam para trás. Uma política pública sólida precisa pensar em escala Nacional, garantindo acesso, segurança e equidade.”
Mesmo com desafios, a base do SUS favorece a adoção responsável. “O SUS é um sistema de saúde único, universal e robusto, no país e no mundo. Com todas as suas dificuldades, ele funciona. E o SUS está apto para se adequar a essas novas tecnologias, como já fez com outras no passado.” A prudência segue mandatória. “Tudo deve ser feito com muito cuidado. É preciso entender a ética por trás da adoção de novas tecnologias e avaliar o real ganho para a população. O risco e o benefício devem ser considerados para evitar problemas de saúde pública, morbidade e mortalidade.”
No fim, a integração entre humanos e algoritmos define o sucesso da inteligência artificial no SUS. “A decisão será sempre da parceria entre os dois — os algoritmos trazem velocidade e escala, mas é o ser humano que dá sentido às informações e traz a empatia que nenhuma máquina entrega. A IA tem que ser vista como uma aliada, nunca como um ‘oráculo infalível’. A velocidade é importante, mas, em saúde, responsabilidade vem sempre em primeiro lugar.” “Na Performa_IT, acreditamos que o futuro da medicina será copilotado: de um lado, algoritmos preparados para a realidade brasileira; do outro, pessoas guiando as escolhas com ética e humanidade. Não se trata de escolher entre homem ou máquina, mas de unir forças para construir um sistema de saúde mais justo, acessível e eficiente. No fim, a verdadeira revolução não será tecnológica, será humana, apoiada pela tecnologia”.