Confiança para gestão de IA no Brasil: governo recebe nota negativa, enquanto tecnologia lidera no EY AI Sentiment Index

Leitura do cenário: o que o brasileiro sente sobre a confiança para gestão de IA

A confiança para gestão de IA entre os brasileiros revela um contraste marcante entre setores. De acordo com o EY AI Sentiment Index, índice global que mede percepções sobre inteligência artificial a partir de mais de 15 mil entrevistados em 15 países, a amostra do Brasil atribuiu ao governo sete pontos negativos em uma escala que vai de -100, total desconfiança, a +100, total confiança. Foi a pior avaliação entre todos os setores analisados.

Na outra ponta, as empresas de tecnologia receberam a melhor avaliação, com 32 pontos positivos, 17 pontos acima da média global. O levantamento mostra ainda que as companhias de transporte vêm em seguida, com 25 pontos, dez pontos acima da média global, enquanto o setor de saúde aparece com 24 pontos, 11 acima da média global. As empresas de produtos de consumo somaram 23 pontos, 12 acima da média global. Entre os setores com avaliação positiva, o desempenho mais baixo foi o de serviços financeiros, com 14 pontos, oito acima da média global.

Segundo a EY, o recorte brasileiro expõe um quadro de expectativa por inovação, acompanhado de receios concretos com segurança, privacidade e impactos de fraudes digitais. Esse pano de fundo ajuda a explicar por que a confiança para gestão de IA do governo é negativa, ao mesmo tempo em que áreas intensivas em tecnologia se destacam.

Como os setores se posicionam na confiança para gestão de IA

O EY AI Sentiment Index foi criado para mensurar de forma comparável a percepção do público sobre quem, na prática, administra sistemas de inteligência artificial e com quais salvaguardas. No Brasil, o governo ficou em sete pontos negativos, refletindo desconfiança generalizada, enquanto empresas de tecnologia atingiram 32 pontos positivos, liderando a confiança do público.

No ranking setorial, transporte, saúde e produtos de consumo mantiveram notas positivas e superiores à média global, sinalizando, para o público, adoção de IA com ganhos percebidos em eficiência e experiência. Já serviços financeiros fecharam a lista com 14 pontos, acima do índice global, mas ainda assim atrás de outros setores na confiança para gerir a tecnologia.

Para a EY, o desenho desse mapa indica que reputação, histórico de incidentes e transparência no uso da IA exercem forte influência sobre a confiança para gestão de IA. Setores associados a vazamentos de dados ou a fraudes sofrem mais resistência.

Cibercrimes em alta e medo de golpes pesam na percepção

O aumento de crimes digitais no país é um fator relevante para a confiança do público. Em 2024, o número de delitos eletrônicos cresceu 45% em relação a 2023, segundo a ADDP, com um em cada quatro brasileiros relatando tentativa de golpe e, em cerca de metade desses casos, o golpe se concretizando. As modalidades mais comuns foram golpe bancário, phishing e golpe social, que usa engenharia social para induzir ações que geram prejuízo financeiro.

Nesse contexto, a avaliação do governo e de setores expostos a fraudes tende a sofrer. Como resume Márcia Bolesina, sócia-líder de cibersegurança da EY: “Essa avaliação está muito ligada aos incidentes de segurança sofridos pelas empresas e por sistemas do governo. O acesso indevido aos seus dados é uma das principais preocupações dos brasileiros, que fica ainda mais forte em caso de prejuízo financeiro”.

Ela acrescenta que mesmo áreas com investimentos robustos em proteção enfrentam desconfiança pública: “O receio de cair em golpes financeiros influencia nessa avaliação, ainda que as instituições financeiras estejam entre os setores que mais investem em iniciativas de TI e cibersegurança”.

Para a confiança para gestão de IA avançar, especialistas defendem mais transparência sobre políticas de segurança, respostas céleres a incidentes e comunicação didática sobre riscos e medidas de mitigação.

Desinformação por IA, manipulação e os benefícios percebidos

O estudo da EY também captou o impacto da desinformação gerada por IA na confiança dos brasileiros. Entre os respondentes, 80% disseram estar preocupados com a possibilidade de informação falsa produzida por IA ser levada a sério, cinco pontos percentuais acima da média global. Já 56% afirmaram temer a impossibilidade de saber o que é real ou falso com a ascensão da IA generativa, 11 pontos percentuais abaixo do índice global. Além disso, 48% demonstraram preocupação com o uso de IA por empresas para manipular a forma como pensam e sentem, sete pontos percentuais abaixo da média global.

Apesar dos receios, o saldo brasileiro é de otimismo pragmático. Como destaca Andrei Graça, sócio-líder de inteligência artificial e dados da EY Brasil: “Apesar disso, a maioria dos brasileiros (55%), ainda segundo o estudo, considera que os benefícios de IA superam potenciais implicações negativas. São sete pontos percentuais acima do índice global”.

Para que o avanço seja sustentável, ele recomenda um enfoque regulatório e de governança baseado em risco: “Todos esses riscos que podem gerar efeitos negativos devem ser mitigados por meio de uma regulação eficiente, que considere o risco de cada sistema de IA, e de uma governança que envolva todos os níveis das organizações”.

Em síntese, a confiança para gestão de IA no Brasil combina alta expectativa com um alerta vermelho para segurança, privacidade e integridade da informação. O desafio imediato é transformar esse alerta em melhoria contínua de práticas de cibersegurança, transparência e prestação de contas, para que a adoção de IA entregue valor, reduza danos e, principalmente, conquiste a confiança do usuário.

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