Uso individual de IA entre designers no Brasil dispara e expõe falta de diretrizes corporativas, aponta estudo Môre e Ibpad

O uso individual de IA já está consolidado no dia a dia dos designers no Brasil, porém a prática ainda ocorre à margem de políticas internas e processos formais. É o que revela a pesquisa conduzida pela Môre, em parceria com o Ibpad, que mapeou a aplicação de ferramentas de inteligência artificial em rotinas de criação, prototipagem e desenvolvimento de produtos digitais. O levantamento indica uma adesão massiva, mas sem padronização corporativa, com implicações diretas para governança, compliance e proteção de dados.

Segundo o estudo, “94% dos designers usam alguma ferramenta de IA no trabalho e 66% fazem uso diário.” Ao mesmo tempo, o cenário é marcado por autonomia e até informalidade, já que “60% utilizam as soluções de forma independente, com contas pessoais e sem orientação institucional.” A combinação de alta adoção com baixa institucionalização mostra que o uso individual de IA se tornou motor de produtividade, mas ainda carece de diretrizes claras.

Adoção acelerada e prática independente, o que os dados revelam

Os números da pesquisa oferecem um retrato detalhado de como o uso individual de IA se espalhou entre profissionais de design. Entre as atividades mais frequentes estão escrita e revisão de conteúdo, ideação, pesquisa, análise de dados, geração de imagens e automação de tarefas. A ferramenta mais presente no fluxo de trabalho é citada explicitamente no estudo: “O ChatGPT aparece como a ferramenta mais utilizada, presente em 89% das respostas.”

O levantamento abrangeu profissionais de várias regiões e segmentos e mostrou que a adoção é impulsionada principalmente por iniciativas individuais. Os perfis mais engajados incluem designers de produto e serviços digitais, profissionais plenos e seniores e trabalhadores de empresas privadas de tecnologia, com maior concentração na Região Sudeste. Esse recorte reforça que a maturidade técnica e a inserção em ambientes digitais aceleram o uso de IA, sobretudo quando há pressão por eficiência e entregas rápidas.

Na prática, o uso individual de IA transformou o fluxo de trabalho, do rascunho à validação de hipóteses, passando por geração de versões e refinamentos. No entanto, a ausência de guias comuns, trilhas de capacitação e alinhamento jurídico cria assimetria de práticas e potenciais gargalos de conformidade dentro das equipes.

Riscos e lacunas sem políticas internas, LGPD, autoria e veracidade no centro

O estudo mostra que, junto do entusiasmo com ganhos de produtividade, crescem as preocupações com o uso responsável da IA. Em linha com esse diagnóstico, o relatório registra que “O estudo também investigou os principais receios associados ao uso da tecnologia. Autoria, originalidade e veracidade de conteúdos lideram as preocupações, seguidas por temas de compliance e LGPD e pela falta de suporte institucional. Questões relacionadas à dependência tecnológica, ética e vieses aparecem em seguida. A substituição profissional tem baixa relevância no conjunto das respostas.”

Esses pontos sensíveis ganham peso quando a maior parte das interações ocorre em contas pessoais, sem governança formal. Em contextos corporativos, isso pode expor ativos de propriedade intelectual, dados sensíveis e rotinas estratégicas a riscos de vazamento, reuso indevido e aplicações fora de escopo. Além disso, a LGPD exige critérios claros para coleta, tratamento e compartilhamento de dados, o que torna imprescindíveis diretrizes explícitas, logs de uso, políticas de anonimização e avaliação contínua de fornecedores de IA.

Sem políticas, cada designer cria sua própria régua de qualidade, o que leva a resultados desiguais, dúvidas sobre originalidade e maior esforço para validação de veracidade. Em vez de frear a adoção, as empresas têm a oportunidade de estruturar o uso individual de IA de forma responsável, com curadoria de ferramentas, playbooks e padrões que protejam o negócio e impulsionem a criatividade.

Do improviso à governança, o que as empresas devem fazer agora

O Ibpad é explícito ao defender a urgente institucionalização do tema. No relatório, a orientação é direta e aparece com todas as letras: “Para o Ibpad, os resultados apontam a necessidade de diretrizes corporativas claras. Segundo o instituto, as empresas precisam estabelecer processos de uso responsável e alinhamento com temas como propriedade intelectual, governança de dados e limites de automação, já que a prática atual ocorre majoritariamente fora de estruturas internas.”

Entre as ações imediatas, destacam-se a criação de políticas de uso de IA, a definição de critérios de segurança e privacidade, a capacitação contínua de equipes e a implementação de auditorias de conteúdo para reforçar qualidade, autoria e veracidade. Também é recomendável padronizar ambientes, migrando do uso em contas pessoais para plataformas corporativas com controle de acesso, além de orientar sobre limites de automação e documentação de decisões assistidas por IA.

O contexto do estudo reforça seu caráter setorial e prático. “A pesquisa foi apresentada em evento realizado no Learning Village, em São Paulo, e integra um esforço para mapear como profissionais de design estão incorporando IA ao fluxo de trabalho e de que forma isso pode influenciar a adoção corporativa no setor.” A mensagem central é clara, o uso individual de IA já é realidade e gera valor, porém precisa de governança para escalar com segurança, qualidade e aderência regulatória.

No curto prazo, empresas que transformarem iniciativas dispersas em programas estruturados de IA, com métricas, curadoria de ferramentas e padrões de compliance, tendem a capturar os ganhos do pioneirismo, reduzindo riscos. Para designers, a formalização abre espaço para experimentos responsáveis, maior colaboração e validações mais ágeis, consolidando a IA como parceira estratégica no processo criativo.

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