Violência contra jornalistas nas eleições de 2026, debatedores veem ataques coordenados com IA e Ministério da Justiça cria grupo para monitorar agressões

Debatedores alertam para violência contra jornalistas e temem ataques coordenados durante eleições - Notícias

Em audiência do CCS no Congresso, especialistas detalham crescimento da violência contra jornalistas, citam mais de 57 mil ataques em 2024 e defendem resposta coordenada com Observatório e FalaBR

Em audiência pública do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, debatedores alertaram que a violência contra jornalistas ganhou novas faces com os ataques coordenados nas redes sociais e o uso de inteligência artificial para desinformação, tendência que deve se intensificar com a aproximação das eleições de 2026. Ao lado do diagnóstico, o Ministério da Justiça e Segurança Pública anunciou a criação de um grupo de trabalho no âmbito do Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais para monitorar agressões durante o período eleitoral, com recepção de denúncias pela plataforma FalaBR.

A presidente do CCS, Patrícia Blanco, destacou dados recentes e enfatizou a gravidade do cenário. Segundo levantamento da Coalizão em Defesa do Jornalismo, foram registrados mais de 57 mil ataques digitais durante a campanha municipal de 2024, enquanto a Abert apurou que as menções agressivas a jornalistas cresceram 35% em 2025, alcançando cerca de 900 mil registros. Ela ainda ressaltou que as mulheres concentram a maior parte das agressões. Em sua avaliação, proteger o trabalho da imprensa no ciclo eleitoral é salvaguardar a democracia. “A violência contra a imprensa em períodos eleitorais não é um ataque isolado a um indivíduo. É uma afronta ao direito de cada cidadão de receber informações confiáveis para decidir o voto. Eleições justas exigem jornalismo seguro e livre”, disse.

Ataques digitais, IA e recorte de gênero elevam riscos

Os números apresentados na audiência expõem uma escalada que conecta violência contra jornalistas, campanhas de desinformação e ambientes digitais hostis. Com a IA ampliando o alcance de conteúdos manipulados e perfis inautênticos, os ataques coordenados tendem a ganhar tração, especialmente em momentos de maior polarização. Nesse contexto, o recorte de gênero é central, já que, conforme pontuou Patrícia Blanco, a maior parte das agressões recai sobre mulheres jornalistas, o que intensifica vulnerabilidades e exige respostas específicas de prevenção e acolhimento.

Além da pressão online, cresce a prática de assédio judicial, com ações e pedidos indenizatórios usados para intimidar repórteres e redações. A diretora do Instituto Tornavoz, Charlene Miwa Nagae, alertou para a urgência de combater manobras que buscam silenciar coberturas de interesse público, reforçando a necessidade de regras claras, responsabilização efetiva e proteção ao exercício profissional.

Monitoramento no período eleitoral e atuação integrada

A representante da Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Danyelle Reis Carvalho, explicou que o novo grupo de trabalho do Observatório reunirá órgãos públicos e entidades da sociedade civil para monitorar denúncias, identificar padrões de violência e aprimorar a resposta institucional durante as eleições de 2026. A secretária-executiva do Observatório, Cintia Sogayar, detalhou que as denúncias poderão ser enviadas pela plataforma FalaBR, com acompanhamento específico ao longo do pleito, ressaltando a busca por uma atuação coordenada e baseada em evidências. “O grupo de trabalho busca reunir atores-chave para uma resposta mais coordenada no recebimento de denúncias, no acompanhamento dos casos e na produção de diagnósticos e recomendações”, observou.

O presidente do Comitê Editorial e de Programação da EBC, Pedro Rafael Vilela, reforçou que a segurança dos profissionais da comunicação é parte do direito coletivo à informação, não apenas uma pauta corporativa. O relatório mais recente da Fenaj registrou 144 casos de violência contra jornalistas em 2024, indicador que pode crescer em ciclos de maior pressão política. “Quando a gente protege quem informa, protege a liberdade com que esse voto é formado”, afirmou.

Democracia em foco, assédio judicial e responsabilização

Para o diretor da Repórteres sem Fronteiras na América Latina, Artur Romeu, o problema é estrutural e afeta a qualidade do debate público. A entidade monitorou mais de 3 milhões de ataques nas redes sociais durante o processo eleitoral de 2022, o que, segundo Romeu, exige o aperfeiçoamento de mecanismos permanentes de prevenção e responsabilização. “No momento em que um jornalista é atacado, o alvo é a democracia e o direito da sociedade à informação”, disse Romeu.

No campo jurídico, a escalada do assédio judicial preocupa por tentar desestimular reportagens de interesse público com custos financeiros e desgaste pessoal dos profissionais. Charlene Miwa Nagae defendeu o fortalecimento do Observatório, a responsabilização dos autores de ataques e a aprovação de medidas de proteção ao exercício do jornalismo. “A gente precisa de mecanismos de prevenção e de responsabilização para que essas práticas deixem de ocorrer”, disse.

Com as eleições de 2026 no horizonte, o debate no CCS convergiu para a necessidade de resposta coordenada entre governo, entidades de imprensa e sociedade civil. Combater a violência contra jornalistas passa por melhorar os canais de denúncia, produzir diagnósticos públicos, responsabilizar autores de agressões e fortalecer a cultura de respeito à liberdade de imprensa, pilares essenciais para garantir que o eleitor receba informação de qualidade e decida seu voto com autonomia.

Ao conectar dados, relatos e propostas, a audiência reforça que proteger quem informa é proteger a integridade do processo democrático. Diante do avanço dos ataques coordenados e da desinformação, a efetividade do novo grupo de trabalho, o uso do FalaBR e a cooperação entre instituições serão decisivos para reduzir riscos, apoiar vítimas e assegurar um ambiente mais seguro para o jornalismo profissional.

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